Planalto aposta em novo encontro entre Lula e Trump nos bastidores da ONU

O Palácio do Planalto trabalha com a possibilidade de um novo encontro informal entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Lula deverá embarcar para os Estados Unidos no domingo (20) e permanecer na cidade até terça-feira (22), quando deixará o país após realizar seu discurso na ONU. Até o momento, não existe uma reunião bilateral oficialmente marcada entre os dois presidentes, nem houve pedido formal dos governos para que uma conversa seja realizada. Apesar disso, a programação da cerimônia poderá criar uma oportunidade para um contato rápido entre os chefes de Estado, já que Lula será responsável por abrir a sequência de discursos dos líderes mundiais e Trump falará logo depois.
A dinâmica dos pronunciamentos faz com que os dois presidentes possam ocupar áreas próximas em momentos diferentes da programação. Lula deverá deixar o espaço reservado aos chefes de Estado justamente quando Trump se preparar para iniciar sua participação. O formato é semelhante ao que ocorreu na Assembleia Geral do ano passado, quando os dois tiveram uma conversa breve. Na ocasião, Trump afirmou que havia percebido uma “excelente química” com o presidente brasileiro. O contato serviu como ponto de partida para uma aproximação entre os dois governos, que posteriormente incluiu encontros presenciais na Malásia e na Casa Branca, além de conversas telefônicas. Segundo auxiliares brasileiros, a relação pessoal entre Lula e Trump permanece preservada, mesmo diante das dificuldades e dos momentos de menor comunicação entre integrantes das respectivas administrações.
O contexto desta nova possibilidade de encontro, entretanto, apresenta questões adicionais de tensão entre Brasil e Estados Unidos. Trump voltou recentemente a criticar a atuação do governo brasileiro no combate ao crime organizado, citando especificamente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Paralelamente, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro manteve contatos com integrantes do governo norte-americano para tratar de assuntos relacionados à eleição brasileira e à crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF). A relação entre Brasília e Washington também passou por momentos de forte pressão no ano anterior, quando o governo norte-americano adotou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e aplicou sanções com base na Lei Magnitsky. Nesse cenário, qualquer eventual conversa entre Lula e Trump poderá ocorrer paralelamente a temas de interesse dos dois países.
O discurso que Lula fará na Assembleia Geral deverá abordar questões brasileiras e internacionais. Entre os temas previstos estão a defesa do multilateralismo e da soberania nacional, além de uma manifestação contrária à interferência de governos estrangeiros nas eleições brasileiras. A fala deve durar entre 15 e 20 minutos e também deverá tratar dos conflitos armados que ocorrem atualmente em diferentes regiões do mundo. O presidente pretende destacar os impactos dessas guerras sobre a economia internacional, especialmente sobre a produção e os preços dos alimentos. Outro ponto esperado é a defesa de soluções diplomáticas para os conflitos, acompanhada de um alerta sobre o crescimento dos investimentos militares e da corrida armamentista entre países.
A disputa internacional por recursos naturais considerados estratégicos também deverá aparecer entre os assuntos abordados pelo presidente brasileiro. O tema ganhou espaço no discurso do governo diante da importância econômica de minerais críticos e terras raras para setores como tecnologia, energia e defesa. Lula deverá relacionar essa questão à defesa da soberania dos países sobre seus próprios recursos e à necessidade de ampliar a cooperação internacional sem abrir mão dos interesses nacionais. A participação brasileira na agenda ambiental também será destacada, com referências à COP30 e à proposta de combinar crescimento econômico com preservação ambiental. A intenção é apresentar o Brasil como um país interessado em conciliar desenvolvimento, sustentabilidade e participação nas negociações internacionais.
Outro assunto previsto para o pronunciamento é a regulamentação das plataformas digitais. Lula deverá mencionar o ECA Digital, legislação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual, além de questões relacionadas à segurança de mulheres e aos impactos do avanço da inteligência artificial. A possível conversa entre Lula e Trump, caso aconteça durante a passagem dos dois pela ONU, ocorreria, portanto, em um momento marcado por temas diplomáticos, comerciais, eleitorais e de segurança envolvendo os dois países. Embora não exista uma reunião bilateral confirmada até agora, a proximidade na programação da Assembleia Geral poderá facilitar um novo contato informal entre os presidentes, repetindo uma situação semelhante à registrada no encontro da ONU no ano anterior.



