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Documentos da PF apontam relação de Vorcaro com o Banco Central por imóveis, viagens e mensagens confidenciais

Trechos do inquérito da Polícia Federal retirados do sigilo nesta semana ampliaram a investigação sobre a relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e servidores do Banco Central. O material, agora submetido ao Supremo Tribunal Federal, acrescenta elementos sobre troca de mensagens, encontros presenciais, supostos benefícios patrimoniais e circulação de informações internas da autoridade monetária, em um momento em que o caso já havia evoluído para uma disputa jurídica sobre os limites da apuração.

A nova fase do caso ganhou impulso após decisão do ministro André Mendonça, relator da investigação no STF, que autorizou a divulgação de partes do relatório da PF. Na sequência, o presidente da Corte, Edson Fachin, indicou que o tribunal adotaria medidas “no tempo devido” e sem precipitação, numa tentativa de preservar a instituição diante de suspeitas de vazamento, interlocuções impróprias e possível uso indevido de acesso a informações sigilosas.

De acordo com o que foi descrito pela PF e repercutido pela imprensa, Vorcaro teria mantido contato direto com um interlocutor salvo em seu celular como Alexandre de Moraes, e parte dessas interações foi recuperada de forma incompleta porque o empresário usava recursos como bloco de notas e mensagens de visualização única. Em uma das mensagens destacadas nas reportagens, ele diz que tentava antecipar investigadores, o que reforçou a hipótese de acesso prévio a diligências e decisões que ainda estavam sob sigilo.

No eixo que envolve o Banco Central, o nome mais sensível é o de Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária e ex-diretor de Fiscalização da autarquia. Os autos citados pela cobertura jornalística apontam que ele aparece em conversas com Vorcaro e que, segundo depoimento do ex-banqueiro à PF, ambos se encontraram algumas vezes em Brasília e São Paulo, em ocasiões que teriam servido para discutir a instabilidade do Master e a tentativa de fusão com o BRB.

A investigação também menciona a possibilidade de vantagens patrimoniais associadas a esse entorno. Segundo os relatórios divulgados, Vorcaro teria intermediado a compra de um imóvel rural de R$ 4,8 milhões envolvendo Paulo Sérgio e o irmão dele, Luis Roberto, com participação de Fabiano Zettel na negociação. A PF trata esse tipo de operação como indício de aproximação indevida entre o banqueiro e servidores que ocupavam funções estratégicas na supervisão bancária.

Outro ponto destacado no material é a menção a uma viagem à Disney para Paulo Sérgio e familiares, organizada a partir de providências atribuídas ao círculo de Vorcaro. A apuração aponta que os contatos obtidos no celular do ex-banqueiro indicariam a logística desse deslocamento, o que, na leitura dos investigadores, reforça a tese de que a relação extrapolava conversas institucionais e envolvia facilidades pessoais.

Também aparece nas apurações o nome de Belline Santana, apontado pela PF como alguém que teria recebido pagamentos mensais de Vorcaro. As mensagens localizadas no aparelho do ex-banqueiro mencionariam valores de R$ 760 mil e sugeririam vínculo ao menos desde outubro de 2023, quadro que os investigadores usam para sustentar a existência de uma rede de influência articulada em torno do Banco Central e de suas decisões sobre o Banco Master.

Em paralelo, a PF passou a reunir outros registros sobre a circulação de informações confidenciais ligadas ao Master. Há relatos de que Vorcaro teve acesso antecipado a diligências da investigação, além de referências a mensagens recebidas sobre o andamento de apurações de interesse do banqueiro. Esse conjunto de elementos não encerra a discussão sobre a origem de cada vazamento, mas reforça o entendimento de que havia trânsito privilegiado de dados sensíveis em diferentes frentes da investigação.

A reação institucional ao caso abriu uma frente paralela no STF. Fachin afirmou que o tribunal examinaria as medidas cabíveis para proteger a autoridade das decisões da Corte, enquanto o procurador-geral da República, Paulo Gonet, defendeu a nulidade de parte da investigação sobre as conversas envolvendo Moraes e Vorcaro, argumentando que o aprofundamento da apuração deveria seguir procedimento próprio e ser submetido ao plenário. O debate jurídico agora gira em torno da competência para supervisionar o material já colhido e da validade dos atos que derivaram dele.

O caso também se insere em um histórico mais amplo de desdobramentos da Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras no Banco Master e suspeitas de corrupção de agentes públicos. Vorcaro foi transferido em maio para uma cela comum na superintendência da PF, em Brasília, após autorização de Mendonça, e a defesa passou a negociar acordo de colaboração, segundo reportagens da Agência Brasil. Esse contexto ajuda a explicar por que cada novo trecho revelado do inquérito tem impacto simultaneamente policial, regulatório e político.

Na prática, as revelações mais recentes colocam sob escrutínio não apenas a atuação do ex-banqueiro, mas também o ambiente de interlocução que cercava o Master em Brasília. Entre documentos sigilosos, encontros registrados, supostos benefícios econômicos e mensagens que sugerem acesso a informações internas, a investigação tenta separar o que foi mera aproximação empresarial do que pode configurar influência indevida sobre uma autarquia responsável por fiscalizar bancos. O avanço das apurações no STF e na Polícia Federal indicará se esses vínculos serão tratados apenas como indícios de relacionamento impróprio ou como parte de um esquema mais amplo de favorecimento.

Com informações de CNN Brasil, Estadão, UOL e Agência Brasil.

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