PF suspeita que Toffoli tenha dinheiro de Vorcaro em paraíso fiscal, diz revista

Um relatório da Polícia Federal traz elementos que indicam o ministro José Antonio Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, como possível beneficiário final ou proprietário de fato do fundo de investimento Arleen, que recebeu R$ 35 milhões do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. O documento permaneceu sob sigilo durante sete meses, na relatoria do ministro André Mendonça, e foi tornado público pela revista Piauí nesta sexta-feira, 10. Os valores teriam sido transferidos para as Ilhas Virgens Britânicas, território reconhecido como paraíso fiscal, por meio de operação envolvendo a holding Egide I.
Conforme o levantamento, o fundo Arleen era inicialmente ligado a Vorcaro, mas passou a ser administrado por um empresário apontado como amigo do magistrado. O patrimônio do fundo incluía participação no resort Tayayá, localizado no interior do Paraná e associado à família de Toffoli. Posteriormente, os ativos foram transferidos para o exterior. O relatório destaca que a sequência de movimentações não se apresenta como operação comercial comum, sugerindo que a estrutura teria servido para direcionar recursos ao ministro de forma indireta.
Toffoli já negou anteriormente manter amizade com o banqueiro ou ter recebido valores dele. Procurado pela imprensa nesta sexta-feira, ainda não se pronunciou especificamente sobre a gestão de recursos no exterior. A ligação entre o ministro e o empreendimento se dá também por meio da empresa Maridt, da qual é sócio e que detinha participação societária no complexo hoteleiro. Parte dessa participação foi vendida a fundos que tinham como acionista Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, o que reforça a conexão entre os envolvidos.
Troca de mensagens entre Vorcaro e Zettel, registrada em maio e agosto de 2024, mostra pressão recorrente sobre o destino dos recursos. Em uma das conversas, o banqueiro indaga: “Você não resolveu o aporte do fundo Tayayá? Estou em situação ruim”. Mais tarde, cobra novamente: “Aquele negócio do Tayayá não foi feito?”. Zettel responde que os valores estavam no fundo proprietário do empreendimento e que as cotas poderiam ser transferidas. Ao ser questionado sobre o montante total aplicado, informa: “Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões”, completando assim os R$ 35 milhões investigados.
O diálogo revela incertezas e atrasos que, segundo os investigadores, não combinam com transações regulares. A insistência de Vorcaro e a resposta evasiva sobre a localização exata do dinheiro reforçam a suspeita de que os recursos não seguiam para um destino previamente combinado de forma transparente. O relatório da Polícia Federal conclui que os elementos reunidos, analisados em conjunto, apontam para a existência de um vínculo entre o fluxo de capitais e o ministro, ainda que por meio de camadas intermediárias de gestão.
A divulgação do documento traz um novo capítulo para a crise que envolve o Supremo Tribunal Federal e levanta questionamentos sobre a tramitação de processos sensíveis dentro da Corte. O material esteve reservado ao conhecimento de um número restrito de pessoas durante meses, o que também tem sido objeto de debate. A expectativa da sociedade agora é de que os fatos sejam esclarecidos com rapidez, que os envolvidos tenham oportunidade de se manifestar e que as apurações prossigam com total transparência, de modo a restabelecer a confiança nas instituições e no funcionamento independente do Judiciário.



