Reunião de três horas entre Moraes e Alcolumbre chama atenção em meio à crise envolvendo Mendonça

Uma reunião de aproximadamente três horas entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) passou a ocupar o centro das discussões em Brasília nesta sexta-feira (4). Segundo informação publicada pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo, e repercutida por outros veículos, o encontro ocorreu na quarta-feira (2), na residência de Alcolumbre, no Lago Sul, em Brasília, antes de Moraes formalizar questionamentos contra o ministro André Mendonça. O momento em que a conversa aconteceu despertou atenção porque o Supremo já enfrentava forte tensão em razão das investigações do caso Banco Master. Não há, porém, elemento público que permita classificar oficialmente a reunião como “secreta”; o mais preciso é tratá-la como um encontro reservado entre duas das autoridades mais influentes do país.
A reunião ganhou ainda mais relevância porque Alcolumbre aparece em relatórios de inteligência da Polícia Federal citados posteriormente por Moraes ao questionar a condução de investigações sob responsabilidade de André Mendonça. Segundo esses documentos, o presidente do Senado poderia representar um “provável alvo estratégico” de eventual direcionamento investigativo atribuído ao relator dos casos Master e INSS. A análise relacionava essa hipótese ao peso político de Alcolumbre e ao poder que o presidente do Senado exerce sobre a tramitação de pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo. Contudo, há uma ressalva importante: reportagem do Metrópoles mostrou que parte das avaliações do relatório tinha grau de confiança classificado como “baixo” ou “moderado” e que o próprio documento registrava limitações quanto ao uso probatório de suas conclusões.
O encontro ocorreu justamente quando Mendonça defendia que o plenário do Supremo analisasse informações encontradas pela Polícia Federal em aparelhos ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, material que inclui referências e mensagens relacionadas a Moraes. A Procuradoria-Geral da República questionou parte das diligências determinadas por Mendonça e pediu a nulidade do relatório, enquanto o relator sustentou que o tema deveria ser examinado coletivamente pela Corte. Moraes, por sua vez, passou a apontar possíveis irregularidades na atuação do colega, alegando que Mendonça teria ultrapassado os limites da função judicial durante as operações Compliance Zero e Sem Desconto. Esse conjunto de acontecimentos transformou uma divergência processual em uma das mais delicadas controvérsias internas recentes do Supremo.
Depois da reunião com Moraes, Alcolumbre voltou ao Senado e respondeu publicamente às pressões para colocar em pauta pedidos de impeachment contra o ministro. Durante a sessão, mencionou o financiamento da produção cinematográfica “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, lembrando que Daniel Vorcaro também havia sido procurado para aportar recursos no projeto. O presidente do Senado afirmou que vinha recebendo críticas e questionou por que a atenção estaria concentrada exclusivamente sobre Moraes. A sequência temporal — reunião reservada pela manhã e manifestação no plenário posteriormente — ampliou as especulações sobre o conteúdo da conversa entre os dois. Entretanto, não há registro público da pauta integral do encontro nem prova de que Moraes tenha solicitado a Alcolumbre qualquer providência contra Mendonça. Qualquer afirmação nesse sentido permanece no terreno das interpretações políticas.
Nos bastidores, interlocutores citados pela imprensa avaliam que a proximidade entre Alcolumbre e Moraes pode se tornar um fator relevante caso a crise avance para o Senado. Também circula a interpretação de que as acusações formuladas contra Mendonça poderiam fornecer fundamentos políticos para eventuais pedidos de responsabilização do ministro. Moraes afirma haver “fortes indícios” de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na condução de determinadas investigações, mas essas acusações ainda não foram julgadas. Da mesma forma, a hipótese de que Alcolumbre seria deliberadamente investigado por Mendonça é baseada principalmente na avaliação feita pelos relatórios de inteligência da PF, e não em uma ordem pública do ministro determinando investigação contra o senador. A distinção é essencial para não apresentar hipóteses produzidas por analistas como fatos definitivamente comprovados.
O presidente do STF, Edson Fachin, agora tenta organizar uma resposta institucional ao impasse. Fachin determinou que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentem esclarecimentos sobre as medidas adotadas nas investigações e sobre as divergências surgidas nos últimos dias. Assim, a reunião de três horas entre Moraes e Alcolumbre adiciona um componente político importante, mas não permite concluir que tenha existido um acordo para atingir Mendonça ou preparar um processo de impeachment contra ele. Não consigo confirmar isso. O fato verificável é que o encontro ocorreu em momento decisivo da crise, Alcolumbre foi posteriormente mencionado em documentos usados por Moraes e o Senado possui papel constitucional relevante em eventual responsabilização de ministros do STF. Os esclarecimentos das próximas semanas poderão revelar se esses acontecimentos têm relação direta ou apenas ocorreram dentro de uma mesma sequência de intensa movimentação institucional.



