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Filha de Olavo de Carvalho é encontrada sem vida

A morte de Heloísa de Carvalho Martin Arribas, ocorrida na noite de 7 de janeiro de 2026 em sua residência em Atibaia, interior de São Paulo, encerrou de forma trágica uma trajetória marcada por intensas controvérsias familiares e posicionamentos políticos opostos aos de seu pai, o filósofo e escritor Olavo de Carvalho. Encontrada sem vida por um amigo que acionou a polícia, Heloísa residia na cidade havia anos e tinha 56 anos. A Polícia Civil investiga as circunstâncias do óbito, com suspeita inicial de suicídio ligada a um quadro de intoxicação por medicamentos, embora laudos periciais ainda sejam aguardados para definição da causa oficial.

Heloísa era a primogênita entre os oito filhos de Olavo de Carvalho, figura central do conservadorismo brasileiro e considerado por muitos o principal ideólogo do bolsonarismo. Diferentemente dos irmãos, ela rompeu publicamente com o pai em 2017, quando publicou uma carta aberta denunciando ausências e traumas da infância, além de acusações graves sobre o comportamento familiar do filósofo. Esse rompimento se aprofundou com o lançamento do livro “Meu pai, o guru do presidente”, no qual expôs detalhes da vida privada de Olavo e criticou sua influência política no Brasil.

A divergência ideológica foi um dos pilares do conflito: enquanto Olavo se posicionava como expoente da extrema-direita, Heloísa adotou posturas de esquerda, filiando-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) em 2021 e, posteriormente, aproximando-se de outras siglas progressistas. Essa escolha política a colocou em rota de colisão direta com o pai, que a excluiu de seu testamento após sua morte em 2022, nos Estados Unidos, deixando-a sem qualquer parte da herança dividida entre os demais filhos, a viúva e parentes próximos.

Apesar do afastamento familiar, Heloísa ganhou notoriedade pública por ações que impactaram investigações políticas. Em 2020, ela foi uma das primeiras a denunciar o paradeiro de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro, escondido em Atibaia na casa do advogado Frederick Wassef. Sua revelação nas redes sociais contribuiu para a prisão do investigado no esquema conhecido como “rachadinha”, gerando embates diretos com figuras ligadas ao bolsonarismo e ampliando sua visibilidade como opositora ferrenha do movimento que seu pai ajudou a inspirar.

A relação com Olavo foi permeada por disputas judiciais. Em 2017, o filósofo moveu ação contra a filha por calúnia e difamação após a carta aberta, mas o caso terminou em acordo, com Heloísa excluindo sua conta no Facebook e Olavo retirando a queixa. Outras acusações mútuas marcaram o período, incluindo queixas de Olavo que alegavam uma suposta campanha orquestrada para difamar sua reputação, todas arquivadas ou resolvidas sem condenação.

Heloísa manteve presença ativa nas redes sociais e em entrevistas, onde relatava experiências pessoais de abandono na infância, dificuldades educacionais e críticas à trajetória do pai, a quem atribuía males tanto familiares quanto sociais. Mesmo após a morte de Olavo por complicações da covid-19 – doença que ele minimizava publicamente –, ela continuou a se manifestar, expressando ressentimentos e defendendo que a herança do filósofo merecia escrutínio quanto a supostas fontes de financiamento de suas atividades.

O falecimento de Heloísa de Carvalho representa o desfecho de uma história complexa de ruptura geracional e polarização ideológica no seio de uma das famílias mais influentes do debate político brasileiro recente. Enquanto o país reflete sobre o legado controverso de Olavo de Carvalho, a perda da filha primogênita reacende discussões sobre os custos humanos de divisões familiares agravadas por alinhamentos políticos irreconciliáveis, deixando um vazio marcado por controvérsias não resolvidas e memórias dolorosas.

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