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No entorno de Bolsonaro, foto de Lula e Trump é vista como derrota; Planalto trata Eduardo como cabo eleitoral

As imagens do encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Malásia, no último domingo, provocaram intensas reações no meio político brasileiro. No entorno de Jair Bolsonaro, a fotografia dos dois líderes juntos foi recebida como uma verdadeira derrota simbólica. A avaliação predominante entre aliados do ex-presidente é que o episódio reforça a percepção de que Lula conseguiu ocupar um espaço de diálogo com o norte-americano que antes era monopolizado pelo clã Bolsonaro, em especial por Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente.

A leitura feita entre interlocutores do bolsonarismo é que Lula, ao aparecer ao lado de Trump durante a Cúpula da ASEAN, conseguiu se projetar internacionalmente como um interlocutor capaz de transitar em ambientes políticos diversos. Essa imagem, segundo aliados de Bolsonaro, mina a estratégia de seu grupo de manter influência junto à direita global. Ainda que publicamente alguns tentem minimizar a situação, nos bastidores há um sentimento de incômodo. Para muitos, a simples fotografia de Lula e Trump é carregada de simbolismo, pois mostra o petista no papel de estadista e o bolsonarismo em posição defensiva.

Eduardo Bolsonaro, que vinha tentando articular uma aproximação com setores ligados a Trump e foi um dos idealizadores do “tarifaço” que afetou produtos brasileiros, acabou sendo alvo de ironias dentro do próprio Palácio do Planalto. No governo, ele é tratado como um “cabo eleitoral involuntário” de Lula, já que o resultado de suas movimentações acabou favorecendo politicamente o presidente petista. A leitura é que, ao insistir em um discurso de confronto e isolamento, Eduardo acabou criando as condições para que Lula surgisse como alternativa pragmática de interlocução com o governo norte-americano.

Entre os aliados mais moderados da direita, há um certo lamento pela ausência de protagonismo do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, nesse cenário. Segundo fontes, Tarcísio poderia ter ocupado esse espaço de diálogo com os Estados Unidos, apresentando-se como uma figura mais ponderada e moderna da direita brasileira. No entanto, essa possibilidade foi duramente criticada por Eduardo Bolsonaro, que chegou a acusar o governador de “subserviência às elites” quando ele tentou se aproximar de empresários e diplomatas norte-americanos. A crítica acabou isolando Tarcísio e reforçando a imagem de radicalização em torno do núcleo bolsonarista.

No Palácio do Planalto, a reação ao encontro foi de comemoração discreta. Assessores próximos de Lula interpretaram as imagens como um sinal de que o presidente brasileiro conseguiu se reposicionar no cenário internacional como uma liderança de peso, capaz de dialogar com figuras influentes de diferentes espectros ideológicos. A avaliação é que, independentemente do conteúdo das conversas, a simples presença de Trump ao lado de Lula transmite a mensagem de que o petista é um ator indispensável nas discussões geopolíticas e comerciais.

Segundo fontes do governo, o gesto de Trump indica também um movimento tático do ex-presidente americano, que busca reduzir o impacto político das tarifas impostas a produtos brasileiros, como o café e a carne, sem parecer estar cedendo a pressões externas. Lula, por sua vez, teria aproveitado a ocasião para se apresentar como um negociador disposto a buscar soluções equilibradas, reforçando sua imagem de líder pragmático e diplomático.

No campo da comunicação, a foto teve um efeito imediato nas redes sociais. Perfis ligados ao bolsonarismo tentaram enquadrar o encontro como um gesto meramente protocolar, destacando que a menção de Trump a Bolsonaro teria sido “respeitosa”. Entretanto, a narrativa não prosperou. Nos meios políticos e jornalísticos, a imagem ganhou leitura oposta: a de que Lula conseguiu desarmar um dos símbolos mais fortes da retórica bolsonarista — a ideia de exclusividade de relações com Trump e com a direita norte-americana.

Aliados do presidente brasileiro acreditam que o episódio reforça sua estratégia de reconstruir pontes internacionais após os anos de isolamento diplomático. O Itamaraty teria trabalhado para viabilizar o encontro de modo discreto, explorando a oportunidade oferecida pela cúpula asiática. A presença de Lula e Trump lado a lado foi, portanto, cuidadosamente planejada para ter impacto global, não apenas regional.

No meio político, a cena repercutiu como um marco simbólico de virada. A direita bolsonarista, que sempre explorou a imagem de proximidade com Trump como ativo político, viu essa vantagem ser neutralizada em um único gesto. Já Lula conseguiu se projetar como uma figura que dialoga com diferentes campos ideológicos, algo que reforça seu discurso de união e pacificação nacional.

Entre analistas, a avaliação é que a foto sintetiza a nova fase da política internacional brasileira: uma tentativa de reposicionar o país como interlocutor confiável e moderado. Para o bolsonarismo, o episódio expõe fragilidades estratégicas e acentua divisões internas. Para Lula, representa uma vitória simbólica e diplomática, capaz de fortalecer sua imagem no exterior e, ao mesmo tempo, desarticular um dos pilares da narrativa da extrema-direita no Brasil.

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