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Tensão cresce no Itamaraty e embaixadores cogitam antecipar aposentadoria diante do 2º turno

O segundo turno da eleição presidencial passou a produzir reflexos também nos bastidores do Ministério das Relações Exteriores. Diplomatas do alto escalão do Itamaraty avaliam antecipar a aposentadoria ou buscar postos de menor exposição política caso Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito presidente da República. Segundo informações originalmente atribuídas à Coluna do Estadão e reproduzidas por diferentes veículos neste sábado, 11 de outubro, o movimento envolve sobretudo integrantes da carreira próximos da aposentadoria compulsória e identificados com áreas que ganharam maior espaço durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. 

A preocupação aumentou depois de declarações públicas de Eduardo Bolsonaro contra integrantes do corpo diplomático. O ex-deputado afirmou ter feito um “mapeamento” de servidores do Ministério das Relações Exteriores que, em sua avaliação, teriam atuado contra o governo de Jair Bolsonaro. Em manifestações nas redes sociais, Eduardo também falou em mudanças profundas no Itamaraty caso seu irmão chegue ao Palácio do Planalto. As falas provocaram reação entre diplomatas e aumentaram a incerteza sobre como seria conduzida a política externa em uma eventual nova administração. 

Segundo as reportagens que reproduziram a apuração do Estadão, ao menos três secretários do Ministério das Relações Exteriores disseram considerar uma vitória de Flávio como o encerramento de suas trajetórias no alto escalão da pasta. Um deles teria afirmado que não se sentiria confortável em executar determinadas orientações políticas de um novo governo e avaliaria a possibilidade de trabalhar em um consulado, em funções mais distantes das decisões políticas tomadas em Brasília. 

A aposentadoria antecipada aparece como outra alternativa entre diplomatas mais experientes, principalmente aqueles próximos do limite de idade para permanência no serviço público. O movimento, entretanto, não configura uma debandada formal do Itamaraty neste momento. As informações disponíveis são relatos de bastidores sobre possibilidades consideradas individualmente por integrantes da carreira, e não anúncios oficiais de desligamento já protocolados.

Entre as áreas mencionadas como motivo de preocupação estão direitos humanos, meio ambiente, organismos multilaterais, América Latina e políticas relacionadas a gênero. Diplomatas ouvidos pelas reportagens avaliam que essas pautas poderiam perder espaço em uma eventual mudança de governo. Essa percepção está baseada principalmente na experiência da administração Jair Bolsonaro e nas declarações recentes de Eduardo; não existe ainda um programa administrativo definitivo mostrando quais mudanças Flávio implementaria no Ministério das Relações Exteriores caso vença a eleição. 

Um dos episódios que intensificaram a tensão envolve a embaixadora Vanessa Dolce de Faria, Alta Representante para Temas de Gênero do Itamaraty. Ela publicou uma imagem usando símbolos de apoio à candidatura de Lula. Eduardo Bolsonaro reagiu publicamente e sugeriu que, em um eventual governo de seu irmão, a diplomata poderia ser enviada para uma missão no Zimbábue. Também declarou estar acompanhando a atuação de servidores que considera responsáveis por prejudicar a administração de seu pai. 

A manifestação gerou críticas de setores ligados à política externa. O Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil divulgou nota de solidariedade a Vanessa e classificou as declarações dirigidas à diplomata como intimidação. A entidade defendeu a preservação das garantias dos servidores do serviço exterior. Essa posição representa a avaliação do observatório e não uma decisão administrativa ou judicial sobre as declarações de Eduardo. 

Outro nome citado no debate é o da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti. Ela já havia sido alvo de críticas de Flávio Bolsonaro e de aliados depois de uma viagem do candidato aos Estados Unidos. O grupo reclamou da atuação da representação brasileira durante a visita e acusou a embaixada de agir de forma politizada. A diplomata também aparece nas reportagens como uma das integrantes experientes da carreira que poderiam avaliar seus próximos passos dependendo do resultado eleitoral. 

As tensões não começaram apenas depois do primeiro turno. Dias antes da votação, Eduardo já vinha mencionando individualmente membros da diplomacia brasileira e prometendo mudanças no ministério. Reportagem do Poder360 registrou que ele dizia estar “na cola” dos servidores que, em sua avaliação, teriam sabotado o governo Bolsonaro. O episódio tornou mais concreta, para parte da carreira diplomática, a possibilidade de transferências e alterações de postos caso haja mudança no comando do Executivo. 

No Palácio do Planalto também foram relatadas preocupações com uma eventual influência de Eduardo sobre a política externa de um governo comandado por Flávio. Fonte governamental ouvida antes dessas novas informações chegou a dizer que havia receio de Eduardo atuar como uma espécie de “chanceler-sombra”. Essa é uma avaliação de bastidores atribuída a integrante do governo Lula, e não há anúncio de Flávio indicando Eduardo para qualquer função diplomática. 

Por isso, a manchete do Jornal da Cidade Online de que teria “vazado desespero dentro do Planalto” vai além do conteúdo mais específico da apuração. O que está sustentado pelas reportagens é que existe apreensão em uma parcela do Itamaraty e que determinados diplomatas estão cogitando antecipar a aposentadoria ou mudar de função. Não há evidência pública de uma decisão coletiva dos embaixadores nem de um movimento generalizado para abandonar o governo. 

Também é importante separar a carreira diplomática do governo de turno. Diplomatas são servidores públicos de carreira e representam oficialmente o Estado brasileiro sob diferentes administrações. Mudanças de governo costumam produzir alterações nas prioridades da política externa e nas designações para embaixadas e cargos de comando, mas isso não significa que toda a estrutura seja substituída a cada eleição.

A discussão ganha dimensão maior porque o Itamaraty administra relações estratégicas com governos e organismos internacionais. Uma mudança de orientação pode afetar desde negociações ambientais e comerciais até relações com Estados Unidos, países da América Latina e organizações multilaterais. No caso brasileiro, essas diferenças de enfoque estiveram entre os temas mais debatidos durante os governos recentes.

Ao mesmo tempo, uma eventual vitória de Flávio continua sendo apenas uma das possibilidades eleitorais existentes no segundo turno. Os relatos sobre aposentadorias são condicionais e dependem justamente do resultado da votação. Não seria correto apresentar essas movimentações internas como se a troca de governo já estivesse definida.

O cenário atual revela, portanto, uma antecipação das disputas que poderão ocorrer dentro da política externa brasileira a partir de 2027. Parte dos diplomatas demonstra desconforto com as declarações de Eduardo Bolsonaro e teme perder espaço ou sofrer transferências. Do outro lado, integrantes do grupo político de Flávio afirmam que existe “aparelhamento ideológico” no Itamaraty e defendem mudanças profundas caso assumam o governo. Essas são posições políticas opostas que somente poderão produzir efeitos concretos depois da eleição.

O principal fato confirmado até agora é que integrantes experientes do Ministério das Relações Exteriores passaram a discutir aposentadoria antecipada e mudanças de posto diante da possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro, especialmente após as declarações de Eduardo sobre uma futura “faxina” no Itamaraty. 

A movimentação mostra como o segundo turno começa a extrapolar as estruturas partidárias e atingir setores permanentes do Estado. O que ainda não se sabe é quantos diplomatas realmente levariam adiante a aposentadoria, quais mudanças seriam efetivamente propostas por Flávio e quem comandaria a política externa em uma eventual nova administração. Até que essas definições ocorram, o quadro permanece de tensão e expectativa nos bastidores, e não de uma debandada consumada.

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