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Mensagens apreendidas pela PF citam “GM” e revelam tentativa de aproximação de Vorcaro com Gilmar Mendes

Novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, colocaram novamente integrantes do Supremo Tribunal Federal no centro das discussões sobre a rede de contatos mantida pelo empresário. Os diálogos, originalmente revelados pelo Estadão e posteriormente reproduzidos por outros veículos, mostram o advogado Ciro Soares, que atuou para o Master, utilizando repetidamente as iniciais “GM” em conversas com Vorcaro. Pelo contexto das mensagens, a referência era ao ministro Gilmar Mendes, decano do STF. Os registros indicam tentativas de promover encontros entre o banqueiro e o magistrado, mas a assessoria de Gilmar contesta parte dos relatos e afirma que o ministro não participou do jantar mencionado nas conversas. 

Um dos diálogos que mais chamou atenção ocorreu na noite de 17 de junho de 2024. Segundo as mensagens, Ciro tentou localizar Vorcaro ao longo daquele dia e informou que o empresário e ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa, aguardava uma resposta do banqueiro. Mais tarde, depois de Vorcaro informar que havia terminado outro compromisso, o advogado afirmou que “GM” queria que ele participasse de um jantar. O conteúdo das mensagens sugere que a intenção de Ciro era aproximar Vorcaro do ministro. No entanto, a própria troca de mensagens indica que o banqueiro não compareceu ao encontro mencionado naquela noite. 

A assessoria de Gilmar Mendes apresentou uma versão diferente sobre o episódio. Segundo manifestação divulgada à imprensa, o jantar citado por Ciro Soares não teria ocorrido da forma descrita nas mensagens. O gabinete informou que, naquele 17 de junho, o ministro participou de compromissos previamente conhecidos, incluindo o lançamento de um livro e posteriormente um evento religioso em sua residência. Gilmar também afirmou que não manteve encontros com os interlocutores citados para tratar de assuntos de interesse do Banco Master. Em nota, ressaltou ainda que as mensagens foram trocadas entre terceiros e que ele não participou das conversas, razão pela qual não poderia responder pelas afirmações feitas por outras pessoas. 

Os registros, contudo, não se limitam ao episódio de junho. Em conversa de 31 de janeiro de 2024, Vorcaro informou a Ciro que participaria de um almoço organizado pelo grupo Esfera em homenagem ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Ao mencionar a possibilidade da presença de Gilmar, recebeu do advogado a orientação para procurar o ministro. Ciro afirmou, segundo as mensagens, que “GM” já estaria informado sobre a ida de Vorcaro ao evento. O gabinete de Gilmar confirmou a existência do almoço, mas ressaltou que se tratava de um evento amplo, com participação de diversas autoridades, e não de uma reunião reservada entre o ministro e o então controlador do Master. 

Outras conversas acrescentam elementos à tentativa de aproximação. Em 5 de junho de 2024, Ciro informou a Vorcaro que ele e Chiquinho Feitosa haviam participado de uma reunião com “GM”, classificando o encontro de maneira extremamente positiva. Uma semana depois, em 12 de junho, afirmou que estava no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) com Chiquinho e Gilmar e pediu que Vorcaro entrasse em contato. Esses registros são relevantes porque demonstram, no mínimo, que Ciro apresentava ao banqueiro a existência de acesso ao ministro. Isso, entretanto, não comprova que Gilmar tenha tratado de interesses do banco ou tomado qualquer decisão para beneficiar Vorcaro. 

A presença de Chiquinho Feitosa nessa rede também passou a ser examinada com atenção. Mensagens anteriormente reveladas indicam que o ex-senador manteve contrato de assessoria com uma empresa ligada ao ecossistema empresarial de Vorcaro. Reportagens apontam que a remuneração negociada chegou a R$ 500 mil mensais, além de um pagamento adicional previsto no início do contrato. Naquele período, Feitosa ainda era cunhado de Gilmar Mendes e conversava com Vorcaro sobre assuntos relacionados ao setor educacional e a processos que estavam no Supremo. Chiquinho negou que tenha sido contratado com a finalidade de abrir portas junto ao ministro. Gilmar, por sua vez, afirmou que não tratou dos temas empresariais de Vorcaro com o ex-cunhado e destacou que, em julgamento relacionado ao setor de educação, seu voto foi contrário a interesses que poderiam beneficiar o grupo. 

O nome de Paulo Gonet aparece em outra frente das mensagens. Reportagem da Folha de S.Paulo revelou que Ciro Soares chegou a encaminhar a Vorcaro o endereço do procurador-geral da República em dezembro de 2024. Outras conversas mostram tentativas de aproximação social, convites para eventos e referências a encontros. A PGR afirmou, entretanto, que Gonet teve contato com Vorcaro apenas em um evento realizado em Londres e negou que o empresário tenha sido convidado para a residência do procurador-geral ou que exista relação de proximidade entre ambos. Ciro Soares também sustentou que, no período das conversas, Vorcaro não estava sendo tratado como investigado e circulava normalmente em ambientes empresariais e institucionais. 

Essas informações fazem parte de um conjunto muito mais amplo de mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. Nas últimas semanas, reportagens mostraram conversas do empresário com políticos, empresários, apresentadores, autoridades e pessoas ligadas ao Judiciário. O material passou a ser analisado porque a investigação do caso Banco Master procura compreender não somente as operações financeiras sob suspeita, mas também a rede de contatos mobilizada pelo ex-banqueiro enquanto tentava defender os interesses de suas empresas. A simples existência de conversas, reuniões ou relações sociais com autoridades, contudo, não constitui automaticamente prova de crime ou favorecimento. É necessário examinar cada episódio, seus objetivos e eventuais atos concretos praticados posteriormente. 

No caso específico envolvendo Gilmar Mendes, existe ainda um dado importante para evitar conclusões precipitadas. Mesmo em situações nas quais pessoas próximas a Vorcaro demonstravam interesse em processos sob análise do STF, reportagens registram que decisões do ministro nem sempre coincidiram com os interesses pretendidos pelo grupo. No caso envolvendo cursos de medicina, por exemplo, Gilmar afirmou ter votado em favor da posição do governo e contra a pretensão que poderia beneficiar empresas relacionadas ao entorno de Vorcaro. Isso não elimina a necessidade de esclarecer os contatos mencionados nas mensagens, mas mostra que a existência de uma tentativa de aproximação não pode ser automaticamente equiparada à obtenção de vantagem judicial. 

O conteúdo revelado também ajuda a compreender como Vorcaro buscava construir relações em diferentes ambientes de Brasília. Outros diálogos já divulgados mostraram proximidade do ex-banqueiro com presidentes de partidos, parlamentares e outras figuras influentes. Em vários desses episódios, os contatos misturavam interesses empresariais, relações pessoais e discussões políticas. A Polícia Federal vem utilizando o conjunto das comunicações como parte das investigações relacionadas ao colapso do Banco Master e às suspeitas envolvendo as operações conduzidas pelo grupo de Vorcaro. 

A principal revelação das mensagens agora conhecidas, portanto, é a atuação de Ciro Soares como alguém que afirmava possuir acesso a Gilmar Mendes e buscava aproximar Daniel Vorcaro do ministro. Os registros mencionam reuniões, eventos e um possível jantar, mas o gabinete do magistrado rejeita a versão de que tenha ocorrido um encontro reservado para discutir interesses do Banco Master. Gilmar ressalta que não participou das conversas reproduzidas e que não pode responder pelo que terceiros escreveram sobre ele. A diferença entre aquilo que Ciro dizia a Vorcaro e aquilo que o ministro reconhece ter efetivamente ocorrido deverá continuar sendo um dos pontos examinados à medida que novas mensagens e documentos da investigação forem conhecidos. 

O caso permanece relevante porque envolve justamente o limite entre relações pessoais, atuação de intermediários e eventual influência sobre autoridades públicas. Até o momento, as mensagens demonstram tentativas de aproximação e registram afirmações de terceiros sobre Gilmar Mendes, mas não estabelecem, isoladamente, que o ministro tenha praticado ato ilegal ou favorecido o Banco Master. A investigação e a divulgação de documentos adicionais poderão esclarecer melhor o contexto. Por enquanto, o elemento novo é que as iniciais “GM”, repetidas nas conversas entre Vorcaro e Ciro Soares, aparecem associadas a encontros e tentativas de aproximação com o decano do Supremo — enquanto o próprio ministro contesta a narrativa de que teria participado das articulações descritas nos diálogos. 

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