A armadilha que preocupa institutos de pesquisa antes do segundo turno

Os institutos de pesquisa eleitoral terão uma nova preocupação justamente na passagem entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2026. A partir do dia seguinte à votação de 4 de outubro, entram em vigor mudanças no sistema utilizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o registro dos levantamentos.
A alteração ocorre em um momento bastante sensível do calendário eleitoral. Caso seja necessário um segundo turno para a disputa presidencial, a votação está marcada para 25 de outubro. Isso significa que os institutos terão poucas semanas para se adaptar às novas exigências e registrar suas pesquisas dentro das regras estabelecidas.
A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), que reúne empresas conhecidas do setor, já demonstrou preocupação com a mudança. A entidade solicitou ao TSE um período de transição para que os novos campos do sistema sejam opcionais durante o mês de outubro.
A intenção, segundo informações divulgadas sobre o pedido, é evitar que pequenos problemas no preenchimento acabem impedindo o registro ou a divulgação de levantamentos durante a reta final da eleição. O novo formulário do sistema PesqEle passa a exigir um nível maior de detalhamento sobre a metodologia utilizada pelos institutos.
Entre as informações solicitadas estão características da amostra, método usado para selecionar os entrevistados e eventual utilização de recursos como áudios, vídeos ou imagens durante as entrevistas. Também deverão ser informados detalhes como a ordem das perguntas, os horários de início e término da coleta, o número efetivo de entrevistas realizadas, recusas, perdas e eventuais substituições. Outros dados relacionados à ponderação da amostra, taxa de resposta e limitações metodológicas também entram no conjunto de informações.
Na avaliação do TSE, a atualização não cria novas obrigações legais. O tribunal afirma que o objetivo é organizar e detalhar informações que já são previstas nas regras eleitorais, facilitando a transparência e a fiscalização dos levantamentos.
O calendário torna a situação ainda mais importante. O primeiro turno acontece em 4 de outubro e, se nenhum candidato à Presidência alcançar mais da metade dos votos válidos, os dois mais votados avançam para uma nova votação em 25 de outubro. Nesse intervalo, as pesquisas costumam ganhar espaço na cobertura jornalística. Elas ajudam a mostrar como está o cenário naquele momento e podem apresentar diferentes simulações de segundo turno.
Levantamentos divulgados nos últimos dias mostram, inclusive, que os números podem variar entre institutos. Uma compilação publicada pelo UOL reuniu pesquisas recentes e mostrou diferenças nas simulações, dependendo da empresa responsável pelo levantamento, da metodologia e do período em que as entrevistas foram realizadas. Por isso, detalhes metodológicos são importantes para que o leitor consiga entender exatamente o que uma pesquisa está mostrando. A preocupação dos institutos também está relacionada a uma decisão recente do próprio TSE.
Em junho, uma pesquisa que apresentava informações incompletas no registro foi analisada pela Corte. Na ocasião, o tribunal entendeu que a falta de complementação de dados obrigatórios prejudicava a fiscalização e determinou que o levantamento fosse considerado não registrado.
A decisão também envolveu multa para a empresa responsável e para um candidato, no valor de R$ 53.205 para cada um. Pelas regras eleitorais, a divulgação de pesquisa sem o registro prévio das informações obrigatórias pode resultar em multa de R$ 53.205 a R$ 106.410. É justamente esse histórico que ajuda a explicar a cautela do setor diante da mudança no sistema.



