Os sertanejos são bolsonaristas? O que explica a relação entre o gênero e a política

A música sertaneja ocupa um espaço enorme na cultura brasileira. Está presente nas rádios, nas plataformas digitais, nas festas do interior e também nos grandes eventos realizados nas capitais. Por isso, quando alguns dos principais nomes do gênero manifestam posições políticas, a repercussão costuma ser imediata. Nos últimos anos, uma associação ganhou força: a de que os sertanejos seriam, em sua maioria, apoiadores de Jair Bolsonaro. Mas será que essa definição representa todo o segmento?
A resposta exige algum cuidado. Existem artistas que declararam apoio ao ex-presidente e, posteriormente, mantiveram proximidade com políticos ligados ao bolsonarismo. Outros preferiram não comentar eleições ou evitar manifestações partidárias. Há ainda cantores que já demonstraram posições diferentes ao longo da carreira.
Um dos momentos mais marcantes dessa relação ocorreu durante a eleição presidencial de 2022. Em outubro daquele ano, Bolsonaro recebeu diversos cantores sertanejos no Palácio da Alvorada. Entre os nomes presentes estavam Gusttavo Lima, Leonardo, Chitãozinho, Zezé Di Camargo, Marrone, Fernando Zor e Sula Miranda. Na ocasião, os artistas declararam apoio à candidatura de Bolsonaro no segundo turno.
O episódio ajudou a consolidar no imaginário popular a ideia de que o sertanejo seria um gênero predominantemente alinhado à direita. A questão, porém, é que uma parte dos artistas não necessariamente representa todos os profissionais da música sertaneja.
Em 2022, uma reportagem do UOL procurou 32 artistas sertanejos conhecidos para saber suas posições políticas. Segundo o levantamento, 28 preferiram responder que não falavam sobre política. O dado é importante porque mostra uma realidade menos comentada: muitos cantores preferem separar a carreira artística de suas escolhas políticas pessoais. Isso também ajuda a entender por que não é adequado transformar um gênero musical inteiro em um bloco político. O sertanejo reúne artistas com trajetórias, opiniões e públicos diferentes. E o cenário de 2026?
A eleição deste ano trouxe novamente essa discussão, mas com uma diferença importante. De acordo com reportagem publicada pelo Poder360 em 27 de setembro, o apoio de artistas à campanha de Flávio Bolsonaro aparece de maneira mais pontual. O cantor Amado Batista, por exemplo, recebeu o senador e integrantes do PL em sua fazenda. A própria campanha também não colocou o apoio de celebridades como uma das principais estratégias eleitorais.
Outro detalhe chama atenção. Uma análise publicada pela Folha em setembro observou que artistas sertanejos que haviam demonstrado maior proximidade com o bolsonarismo em eleições anteriores não aparecem com o mesmo nível de exposição política neste momento.
Isso não significa que esses artistas tenham mudado necessariamente de posição. Em muitos casos, simplesmente não há uma manifestação pública recente que permita afirmar isso. Por que o sertanejo se aproximou da direita? A relação entre sertanejo e política conservadora não começou com Bolsonaro.
O gênero já tinha histórico de aproximação com figuras políticas de diferentes momentos da história brasileira. Pesquisas acadêmicas apontam que artistas sertanejos demonstraram, ao longo das décadas, simpatia ou apoio a nomes associados ao campo conservador.
Além disso, existe uma ligação cultural entre parte do público sertanejo, valores ligados à família, religiosidade, vida no campo e ao agronegócio. Esses elementos podem dialogar com discursos políticos de direita, mas não determinam automaticamente a escolha eleitoral de cada pessoa. É justamente aí que surge a diferença entre tendência e regra. Outro ponto importante é separar o posicionamento de um cantor das preferências de seu público.



