Mensagens mostram a amizade e parceria entre Alcolumbre e Vorcaro

O silêncio do presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), diante de pedidos de investigação sobre o caso Banco Master ganha novos contornos com mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Os registros, aos quais a revista VEJA teve acesso, mostram uma relação de proximidade muito além do convencional, em que os dois se tratavam como irmãos e recorriam um ao outro para assuntos dos mais variados níveis de importância. A intimidade vinha de longa data e se manifestava em mensagens, encontros e articulações que agora passam a ser examinadas pelas autoridades.
No mesmo dia em que Alcolumbre foi eleito presidente do Senado pela segunda vez, em 1º de fevereiro de 2025, Vorcaro enviou-lhe mensagem de felicitação. A resposta do parlamentar foi: “Fala meu amor. Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Sou seu irmão. Pra vida toda”. O banqueiro respondeu com corações e garantiu: “E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa”. A rede de apoio mútua incluía desde demandas institucionais até questões pessoais, como tentativas de identificar fontes de jornalistas e organização de eventos privados.
Em maio do ano passado, Alcolumbre utilizou mecanismos regimentais para impedir a instalação de uma CPI destinada a aprofundar as ligações políticas do escândalo. Na ocasião, justificou que o tema não deveria ser prioridade. Investigações posteriores revelaram que uma das operações financeiras do grupo envolvia o fundo de previdência dos servidores do Amapá, cujo conselheiro era irmão do senador e cujo presidente havia sido tesoureiro de sua campanha. Em junho, o banqueiro chegou a apresentar proposta de delação em que citava repasses de valores ao parlamentar; o acordo não foi aceito e Alcolumbre negou as acusações.
As mensagens detalham ainda a organização de encontros e festas com a participação de autoridades, articuladas por meio de grupos de conversa. Em um evento realizado em Londres, em abril de 2024, com presença de ministros do Supremo Tribunal Federal, do procurador-geral da República e do diretor-geral da PF, Vorcaro teria custeado confraternização de alto padrão. Em diálogos paralelos, tratava-se da presença de convidados vindos de outros países para os eventos. O ex-ministro Fábio Faria aparece como intermediário de encontros entre o banqueiro e autoridades, entre elas o ministro Alexandre de Moraes.
Nos últimos dias, novos desdobramentos judiciais trouxeram a questão de volta à pauta. Na quarta-feira, 23, o ministro Cristiano Zanin negou recurso que pedia a instalação da CPI, entendendo não haver comprovação de omissão do presidente do Senado. Em paralelo, o ministro Luiz Fux abriu prazo para que Alcolumbre se manifeste sobre pedido de divulgação dos registros de entrada e saída de pessoas no Senado, entre elas o próprio Vorcaro. O parlamentar também havia se recusado a fornecer à PF a lista de visitantes do gabinete do senador Jaques Wagner (PT-BA), citado nas investigações.
A sombra sobre o caso ainda não se dissipou completamente. O que se sabe até agora é que a proximidade entre um dos principais nomes do Poder Legislativo e um empresário sob investigação de grande porte levanta questões que vão além de uma relação pessoal. A sociedade espera que cada elemento seja esclarecido com transparência, que os direitos de todos sejam garantidos e que a verdade seja estabelecida de forma plena. O respeito às instituições exige que as dúvidas sejam respondidas, para que a confiança nas decisões e nos agentes públicos possa ser restaurada.



