Gilmar Mendes questiona origem de vazamentos durante sessão do STF: “Quem é o vazador-geral da República?”

O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), colocou o tema dos vazamentos de informações sigilosas no centro da sessão extraordinária desta terça-feira (15), realizada em meio à crise relacionada ao Banco Master e aos questionamentos envolvendo integrantes da própria Corte. Durante sua manifestação no plenário, transmitida ao vivo, Gilmar levantou uma pergunta sobre quem estaria por trás da divulgação recorrente de informações reservadas das investigações, usando a expressão “vazador-geral da República”. A declaração ocorre em um momento no qual ministros, Polícia Federal, partidos políticos e autoridades vêm discutindo publicamente a divulgação seletiva de documentos e mensagens relacionados às apurações. Não consigo confirmar, até esta atualização, a transcrição oficial da frase exata nas matérias escritas já indexadas, por isso ela deve ser atribuída à manifestação exibida ao vivo, e não apresentada como trecho de documento oficial. A preocupação de Gilmar com a origem e o uso dos vazamentos, porém, está diretamente relacionada ao debate que tomou conta do Supremo nas últimas semanas.
A discussão não surgiu apenas durante o julgamento desta terça-feira. O tema dos chamados “vazamentos seletivos” já vinha sendo mencionado por diferentes atores políticos. Na semana passada, o PT pediu ao STF a retirada do sigilo de investigações do caso Master e argumentou que a circulação de trechos reservados poderia permitir que terceiros escolhessem quais informações seriam divulgadas e em qual momento. A petição foi apresentada aos ministros André Mendonça e Flávio Dino e sustentou que a divulgação fragmentada poderia produzir interpretações sem o contexto completo dos autos, especialmente durante o período eleitoral. A CNN Brasil também relatou que o conflito entre integrantes da Polícia Federal e setores do Supremo envolve acusações cruzadas sobre vazamentos e dificuldades no compartilhamento de informações das investigações. Até agora, entretanto, não existe uma conclusão pública e definitiva identificando uma única pessoa como responsável por todos esses episódios.
A fala de Gilmar aconteceu durante uma sessão marcada por divergências sobre a condução dos procedimentos relacionados ao Banco Master. O plenário discute um relatório da Polícia Federal que reuniu informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira, além de questões processuais que podem determinar se o material poderá servir de base para novas apurações. Parte das divergências está relacionada às providências adotadas pelo ministro André Mendonça, que vinha conduzindo procedimentos vinculados ao caso antes de decisões posteriores do presidente do STF, Edson Fachin. Gilmar já havia manifestado publicamente preocupação com a forma como diferentes investigações e decisões estavam sendo conduzidas e chegou a defender que questões envolvendo ministros da própria Corte fossem analisadas pelo plenário, evitando decisões fragmentadas entre gabinetes ou turmas. Nesta terça-feira, ele também criticou medidas anteriores relacionadas ao comando da Polícia Federal.
O debate sobre vazamentos é particularmente sensível porque informações envolvendo o Banco Master apareceram na imprensa antes de determinadas etapas processuais serem concluídas ou tornadas públicas oficialmente. Esse fenômeno provocou questionamentos de diferentes lados da disputa institucional. Integrantes ligados a Mendonça levantaram dúvidas sobre a atuação da Polícia Federal, enquanto representantes da corporação e ministros críticos às decisões do magistrado questionaram a forma como documentos sigilosos passaram a circular. Em análise exibida pela CNN Brasil ainda em agosto, o jornalista Caio Junqueira resumiu o ambiente afirmando que os dois lados do conflito enxergavam o outro como responsável por vazamentos ou dificuldades impostas às investigações. A existência dessa disputa, entretanto, não permite atribuir responsabilidade individual sem uma investigação específica. A própria identificação da origem de um vazamento exige análise técnica, registros de acesso aos documentos e outros elementos capazes de demonstrar quem efetivamente teve acesso e repassou informações reservadas.
A intervenção de Gilmar também ampliou a dimensão do julgamento porque deslocou parte da discussão do conteúdo específico das mensagens atribuídas a Vorcaro para a forma como informações sigilosas vêm circulando entre autoridades, investigadores e imprensa. O Supremo enfrenta, ao mesmo tempo, questionamentos sobre acesso integral às provas, cadeia de custódia, competência dos relatores, participação de ministros diretamente citados nas apurações e transparência perante a sociedade. O próprio Gilmar havia solicitado anteriormente que Fachin reunisse procedimentos relacionados a Alexandre de Moraes e André Mendonça e defendido maior clareza sobre quem estaria sendo investigado e qual seria exatamente o objeto de cada apuração. Fachin decidiu manter os casos separados, mas o debate sobre organização processual continuou durante a sessão. Para Gilmar, questões que atingem integrantes do STF precisam passar pelo colegiado e ser examinadas dentro de regras previamente definidas.
A pergunta sobre quem seria o “vazador-geral da República”, portanto, não identifica por si mesma um responsável, mas traduz uma das principais controvérsias que cercam a crise institucional atual: quem tem acesso a dados sigilosos, como essas informações chegam ao público e se existe seletividade na divulgação de determinados conteúdos. Até que uma apuração apresente elementos concretos, qualquer tentativa de apontar uma pessoa como responsável seria especulativa. O episódio também reforça a necessidade de diferenciar a publicação jornalística de informações de interesse público da eventual quebra irregular de sigilo por agentes que tenham obrigação legal de preservá-lo. Enquanto o STF prossegue com a sessão e discute os próximos passos dos procedimentos relacionados ao Banco Master, a questão levantada por Gilmar adiciona um novo foco ao debate. Mais do que descobrir quem divulgou cada documento, o desafio institucional será estabelecer procedimentos capazes de garantir simultaneamente transparência, preservação das investigações, direito de defesa e igualdade de acesso às informações pelos integrantes do próprio tribunal.



