Delator diz ter feito 7 pagamentos para fundo de ‘Dark Horse’ a mando de Vorcaro

O empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, apresentou à Procuradoria-Geral da República (PGR) novos detalhes sobre a movimentação internacional de recursos atribuídos ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, ampliando uma das frentes mais sensíveis das investigações relacionadas ao chamado caso Master. Segundo o relato prestado no âmbito de sua colaboração premiada, Freixo afirmou ter realizado sete transferências bancárias ao longo de 2025 para o Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos e relacionado ao financiamento de “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com as informações apresentadas pelo empresário, as operações teriam sido realizadas a pedido de Vorcaro e totalizaram US$ 12,333 milhões. Reportagens que tiveram acesso a informações da colaboração apontam que os repasses ocorreram entre janeiro e setembro de 2025, sendo que a última transferência teria alcançado aproximadamente US$ 1,66 milhão. O conjunto das operações coloca novamente no centro das apurações o caminho percorrido pelo dinheiro, sua origem e, principalmente, a destinação final dos valores enviados ao exterior.
O depoimento de Freixo acrescenta uma camada relevante à investigação ao detalhar a estrutura utilizada para operacionalizar parte das movimentações internacionais. Segundo o empresário, Daniel Vorcaro teria solicitado, entre o final de 2024 e o início de 2025, que os recursos fossem enviados ao exterior por meio da subscrição de cotas do Havengate Development Fund. Para viabilizar determinadas operações fora do Brasil, aparece na documentação a Entre Investments and Arbitrage Ltd., companhia vinculada a Freixo e sediada em Nassau, nas Bahamas. O empresário afirmou que recebia instruções e documentos relacionados aos pagamentos e que os procedimentos eram formalizados como investimentos ou subscrições. A presença de uma companhia localizada nas Bahamas tornou-se particularmente relevante para os investigadores porque outras estruturas offshore ligadas ao universo financeiro investigado no caso Banco Master já haviam sido identificadas naquele país. A existência de uma empresa em jurisdição estrangeira, por si só, não configura irregularidade; o ponto central da apuração é verificar a origem econômica dos recursos, os beneficiários efetivos das transações, a correspondência entre os documentos apresentados e as operações efetivamente realizadas, além do cumprimento das regras cambiais, fiscais e de prevenção à lavagem de dinheiro.
Freixo também teria entregue às autoridades comprovantes bancários, registros de operações cambiais e comunicações eletrônicas relacionadas aos aportes no fundo Havengate. Conforme o relato divulgado, o empresário afirmou ter sido inicialmente solicitado a operacionalizar aproximadamente US$ 24 milhões em mais de dez subscrições previstas entre 2025 e 2026, embora apenas sete transações tenham sido efetivamente concluídas. O processo teria incluído contatos com Paulo Calixto, identificado nas reportagens como responsável pelo fundo nos Estados Unidos, além da assinatura, em janeiro de 2025, de uma carta de compromisso referente às subscrições. Ainda segundo Freixo, antes de cada novo pagamento Daniel Vorcaro voltaria a procurá-lo para autorizar a formalização e a transferência correspondente. Esse tipo de documentação deverá ter importância decisiva na investigação, uma vez que um acordo de colaboração premiada não substitui a necessidade de provas independentes: informações fornecidas pelo colaborador precisam ser confrontadas com registros bancários, mensagens, contratos, dados de câmbio e demais elementos capazes de confirmar ou afastar a narrativa apresentada às autoridades.
Fraude milionária
A rota financeira envolvendo Brasil, Bahamas e Estados Unidos também desperta atenção dos órgãos de investigação. Informações anteriormente divulgadas indicaram que técnicos do Banco Central já haviam identificado fluxos considerados atípicos envolvendo estruturas vinculadas ao conglomerado de Freixo, enquanto a Polícia Federal passou a analisar se recursos mantidos ou movimentados por meio de empresas no exterior tiveram relação com os aportes destinados ao Havengate. O próprio delator, segundo as reportagens, afirmou desconhecer a destinação final de todo o dinheiro depois de sua transferência ao fundo norte-americano. Essa questão constitui uma das principais linhas de investigação: determinar se a integralidade dos US$ 12,333 milhões foi destinada exclusivamente às despesas relacionadas à produção de “Dark Horse” ou se parcela dos recursos seguiu para outras finalidades ou beneficiários. A apuração sobre o Banco Master ganhou dimensão justamente porque diferentes operações financeiras passaram a ser analisadas conjuntamente pelos investigadores, incluindo fundos de investimento, empresas brasileiras e estruturas offshore. Por essa razão, a reconstrução documental do trajeto de cada transferência deverá ser fundamental para separar operações regulares de eventuais condutas ilícitas.
Sob o ponto de vista jurídico, as declarações de Antonio Carlos Freixo Júnior devem ser tratadas como alegações apresentadas por um colaborador e submetidas à verificação das autoridades competentes. O acordo firmado com a PGR permanece sujeito ao controle judicial e integra uma investigação que tramita sob sigilo, tendo o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, como relator do caso. A homologação de uma colaboração premiada examina aspectos como voluntariedade, regularidade e legalidade do acordo, mas não representa confirmação automática da veracidade de todas as acusações feitas pelo delator. Cada fato narrado precisa ser posteriormente corroborado por elementos externos e submetido ao devido processo legal. Daniel Vorcaro, por sua vez, já negou acusações de fraude relacionadas às investigações sobre o Banco Master em manifestações anteriores. Da mesma forma, pessoas ou empresas mencionadas nas diferentes frentes de apuração têm direito ao contraditório e à ampla defesa. Essa cautela é especialmente necessária em uma investigação de elevada repercussão política, econômica e financeira, na qual operações legítimas podem coexistir com transações que eventualmente sejam consideradas suspeitas pelos órgãos responsáveis pela fiscalização e persecução penal.
As novas informações fornecidas pelo delator aumentam, portanto, a pressão para que investigadores estabeleçam com precisão a origem, a titularidade econômica e o destino dos recursos movimentados no episódio envolvendo o Banco Master e o financiamento de “Dark Horse”. Mais do que o número de transferências ou o montante de US$ 12,333 milhões, o aspecto central do caso passa a ser a identificação de quem determinava as operações, de onde saía efetivamente o dinheiro e quem se beneficiava dos valores depois de sua chegada ao exterior. A utilização de uma empresa sediada nas Bahamas acrescenta complexidade à reconstrução financeira, mas não constitui isoladamente prova de crime; sua relevância dependerá da documentação bancária e societária obtida pelas autoridades e da eventual conexão com outras operações investigadas. Caso os comprovantes apresentados por Freixo sejam corroborados por dados independentes, sua colaboração poderá oferecer aos investigadores um roteiro detalhado para acompanhar o fluxo internacional dos recursos e confrontá-lo com mensagens, contratos e informações financeiras já reunidas. O avanço dessa apuração tende a manter o caso Master entre os principais episódios sob escrutínio das autoridades brasileiras, sobretudo diante da dimensão financeira das operações, do uso de fundos e estruturas internacionais e das dúvidas ainda existentes sobre o destino final do dinheiro associado ao fundo Havengate e ao projeto “Dark Horse”.



