Em petição, Moraes revela que Alcolumbre seria o próximo alvo de Mendonça

A crise que envolve o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal e as investigações sobre o Banco Master ganhou um novo personagem de peso: Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado. Em manifestação encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin, o ministro Alexandre de Moraes citou um relatório de inteligência da PF segundo o qual Alcolumbre poderia se tornar um “alvo estratégico” na condução de apurações sob responsabilidade de André Mendonça. A avaliação integra os documentos usados por Moraes para pedir providências contra o colega de Corte, a quem atribui suposta atuação parcial em investigações ligadas às operações Compliance Zero e Sem Desconto. É importante destacar que a afirmação sobre Alcolumbre aparece como uma avaliação produzida no relatório policial e reproduzida por Moraes; até agora, não há confirmação de que Mendonça tenha formalmente determinado investigação contra o presidente do Senado.
O trecho que mais chamou atenção relaciona a eventual inclusão de Alcolumbre à força política exercida pelo senador e, principalmente, às prerrogativas do presidente do Senado na análise de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo. Segundo o documento citado por Moraes, os investigadores avaliaram que Mendonça poderia enxergar no empresário e dirigente partidário Antonio Rueda uma possível rota de aproximação com fatos envolvendo Alcolumbre. O relatório também recorda divergências ocorridas durante o processo de indicação de Mendonça ao STF, no governo Jair Bolsonaro, quando o então presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado teve participação decisiva na tramitação da indicação. A tese apresentada pela PF, portanto, associa circunstâncias políticas passadas e atuais, mas permanece uma interpretação dos investigadores e ainda precisa ser submetida ao contraditório e à análise institucional.
O momento em que a informação vem à tona aumenta sua repercussão. Nos últimos dias, Alcolumbre tem resistido às cobranças de parlamentares para acelerar pedidos de impeachment contra Moraes. Durante sessão do Senado, o presidente da Casa respondeu às críticas mencionando inclusive recursos solicitados a Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, relacionado à trajetória de Jair Bolsonaro. A declaração foi interpretada como uma reação aos parlamentares que passaram a cobrar uma postura mais incisiva do Senado depois da divulgação das mensagens entre Vorcaro e autoridades. Essa posição colocou Alcolumbre no centro da disputa política em torno da crise do STF, tornando ainda mais sensível a revelação de que seu nome aparece em um relatório policial como alguém que, segundo a análise dos investigadores, poderia entrar futuramente no radar de diligências.
Moraes utiliza esse e outros trechos para sustentar que haveria direcionamento político na condução de determinadas investigações por Mendonça. Os relatórios citados também apontam supostas diferenças de tratamento entre pessoas investigadas, além de questionarem procedimentos relacionados ao acesso a dados extraídos de celulares e à condução de possíveis acordos de colaboração. Entre os exemplos apresentados aparece Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, cujo tratamento foi comparado pela PF ao dispensado a ACM Neto em situações que os investigadores consideram semelhantes. Mendonça ainda não apresentou publicamente uma resposta detalhada para cada uma dessas acusações. Por isso, as conclusões presentes nos documentos devem ser tratadas como alegações em análise, e não como comprovação de abuso, perseguição política ou qualquer outra irregularidade por parte do ministro.
O confronto institucional teve resposta imediata do presidente do Supremo. Edson Fachin abriu um procedimento para esclarecer o episódio e determinou que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentem explicações em até cinco dias úteis. Fachin afirmou que o caso deve ser examinado com observância do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa. Essa iniciativa ocorre enquanto Moraes acusa Mendonça de ultrapassar os limites da atividade jurisdicional e enquanto Mendonça, por outro lado, defende a análise pelo plenário de informações encontradas nas investigações do Banco Master que mencionam Moraes. O resultado é uma disputa sem precedentes recentes entre integrantes da Corte, com reflexos diretos sobre a relação do STF com a PF, a PGR e o Senado.
Neste momento, portanto, a notícia central não é que Alcolumbre já esteja sendo investigado por Mendonça, mas que um relatório de inteligência da Polícia Federal, apresentado por Moraes para fundamentar sua representação, identificou o presidente do Senado como possível “alvo estratégico”. Não consigo confirmar que exista ordem de Mendonça para investigar Alcolumbre ou prova de que o ministro tenha planejado atingir o senador por razões pessoais. A acusação ainda terá de ser respondida pelo próprio Mendonça e analisada por Fachin e pelos demais órgãos competentes. A relevância política, contudo, é evidente: o presidente do Senado controla a tramitação de pedidos contra ministros do STF, enquanto o Supremo enfrenta uma crise interna alimentada pelas revelações do caso Master. Os esclarecimentos solicitados por Fachin poderão definir se essas suspeitas permanecem no campo das interpretações produzidas pela PF ou se resultarão em novas providências formais dentro da Corte.



