Geral

“O PT é uma merda? É. Mas é minha merda”, diz presidente Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a mencionar uma frase atribuída à economista e ex-deputada Maria da Conceição Tavares ao falar sobre a relação histórica de militantes e simpatizantes com o Partido dos Trabalhadores. A declaração ocorreu na última sexta-feira (7), durante um discurso realizado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Ao relembrar episódios de sua convivência com a economista, Lula reproduziu uma fala marcada pelo tom direto e bem-humorado que costumava caracterizar as intervenções públicas de Conceição Tavares, uma das figuras mais conhecidas do pensamento econômico brasileiro.

Segundo o relato apresentado por Lula, em determinado momento Maria da Conceição Tavares teria sido questionada sobre as críticas feitas ao PT e respondeu de maneira enfática. “PT é uma merda? É. Mas é minha merda, não é a sua. Então, só eu posso falar dela”, teria afirmado a economista, de acordo com a lembrança do presidente. A expressão foi utilizada por Lula para ilustrar uma postura de defesa da legenda mesmo diante do reconhecimento de problemas internos. O presidente não apresentou a frase como uma declaração recente, mas como uma recordação de conversas e episódios ligados à trajetória política do partido e à relação da economista com seus integrantes.

Durante o mesmo discurso, Lula relatou ainda que Conceição Tavares teria feito questionamentos sobre o perfil político e social do PT, especialmente a forte identificação da sigla com trabalhadores de baixa renda. De acordo com o presidente, a economista teria perguntado por que o partido “só gosta de pobre”. Lula afirmou que respondeu relacionando essa característica às origens da legenda. Segundo ele, o PT surgiu em um ambiente marcado pela organização sindical, pelos movimentos sociais e pela participação de trabalhadores que enfrentavam dificuldades econômicas. A lembrança foi usada pelo presidente para reforçar sua interpretação sobre a identidade histórica da sigla desde sua fundação.

Ao explicar essa origem, Lula novamente adotou uma linguagem informal. “Conceição, o PT nasceu da merda. Nós não nascemos na academia, nós não nascemos em escritório, nós nascemos na luta do povo trabalhador”, declarou. A fala procurou destacar, em termos políticos, a diferença entre um partido formado inicialmente a partir de setores acadêmicos ou de grupos tradicionais e uma organização que, segundo a visão apresentada pelo presidente, cresceu a partir de sindicatos, movimentos populares e diferentes segmentos do trabalho organizado. A utilização de expressões fortes chamou atenção no discurso, mas esteve inserida em uma narrativa sobre a formação e a trajetória do PT.

Não é a primeira vez que Lula recorre à declaração atribuída a Maria da Conceição Tavares para falar sobre o Partido dos Trabalhadores. Em 2014, durante um ato político ligado à campanha pela reeleição da então presidente Dilma Rousseff, o petista também fez referência ao episódio. Na ocasião, Lula reconheceu que a legenda possuía problemas e defeitos, mas ressaltou sua identificação com o partido que ajudou a fundar. A repetição da história ao longo dos anos mostra como o presidente utiliza a frase como uma espécie de exemplo sobre pertencimento político: uma defesa da possibilidade de criticar a própria organização sem necessariamente abandonar sua ligação com ela.

A nova referência ocorre em um momento em que Lula mantém a valorização da história do PT como um dos elementos frequentes de seus discursos. Ao recuperar a memória de Conceição Tavares, o presidente também trouxe novamente ao debate uma personagem importante da vida econômica e política brasileira, conhecida por suas posições firmes e por sua proximidade histórica com setores da esquerda. No entanto, como a frase é apresentada a partir da memória e do relato de Lula, o mais preciso é tratá-la como uma declaração atribuída à economista pelo presidente. Mais do que a expressão em si, o episódio foi utilizado para reforçar uma mensagem política: a de que críticas internas podem coexistir com a defesa de uma legenda, de sua origem e da trajetória construída ao longo de décadas.

Mostrar mais

LEIA TAMBÉM: