Alcolumbre sofre pressão e governo Lula entra em alerta

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dirigentes do PT passaram a demonstrar preocupação com o aumento das críticas direcionadas ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Nos bastidores, integrantes do Palácio do Planalto avaliam que declarações de aliados podem dificultar ainda mais as negociações para destravar projetos considerados prioritários pelo Executivo, especialmente a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6×1.
O episódio que elevou a tensão ocorreu após o líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), afirmar que Alcolumbre seria tratado como “inimigo” caso continuasse sem dar andamento à proposta. A declaração repercutiu negativamente entre senadores e provocou reação imediata dentro do próprio governo. Integrantes do Planalto classificaram a fala como exagerada e fizeram questão de ressaltar que ela não representa o posicionamento oficial da bancada governista nem da direção nacional do Partido dos Trabalhadores.
Ministros responsáveis pela articulação política também avaliaram que o discurso acabou prejudicando um momento considerado delicado nas negociações com o presidente do Senado. A estratégia do governo vinha sendo justamente buscar uma reaproximação com Alcolumbre para acelerar votações de interesse do Executivo antes do período de menor atividade do Congresso.
A relação entre Lula e Alcolumbre, que já foi marcada por forte parceria, sofreu desgaste nos últimos meses. O principal ponto de ruptura ocorreu após a indicação do então advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Alcolumbre defendia outro nome para o cargo e acabou sendo apontado como um dos principais articuladores da rejeição da indicação pelo Senado, episódio considerado histórico por ter interrompido uma tradição de mais de um século de aprovações para a Suprema Corte.
Desde então, segundo interlocutores de ambos os lados, os encontros entre Lula e Alcolumbre diminuíram significativamente. A falta de diálogo passou a refletir diretamente na tramitação de projetos considerados estratégicos para o governo, entre eles a proposta que altera a jornada de trabalho conhecida como escala 6×1.
A PEC foi aprovada pela Câmara dos Deputados em maio e passou a ser tratada pelo Palácio do Planalto como uma das principais bandeiras sociais para o ciclo eleitoral de 2026. O próprio presidente Lula participou das articulações para garantir sua aprovação entre os deputados. No Senado, porém, a proposta permanece sem avanço, aguardando que o presidente da Casa autorize seu encaminhamento para análise da Comissão de Constituição e Justiça, etapa necessária antes da votação em plenário.
Após as declarações do líder petista, Davi Alcolumbre respondeu por meio de nota oficial. O senador afirmou que não aceitará ameaças nem tentativas de intimidação e destacou que a definição da pauta do Senado é uma atribuição exclusiva da Presidência da Casa. Segundo ele, decisões sobre a tramitação de propostas não podem ser tomadas sob pressão política ou eleitoral.
Além das críticas feitas por parlamentares, Alcolumbre também demonstrou incômodo com manifestações nas redes sociais. De acordo com relatos de pessoas próximas, o presidente do Senado considera que parte das publicações extrapola o debate político e assume caráter pessoal. Entre os exemplos citados estariam postagens de parlamentares e lideranças governistas cobrando a votação da proposta.
Dentro do próprio PT cresce a avaliação de que o tom adotado por parte da base aliada pode dificultar um entendimento justamente quando havia sinais de retomada do diálogo. Parlamentares defendem que o caminho mais eficiente seja a negociação direta, evitando confrontos públicos que possam endurecer ainda mais a posição do comando do Senado.
Representantes de centrais sindicais também participaram recentemente de reuniões com Alcolumbre para discutir a proposta. Segundo relatos, até mesmo integrantes do movimento sindical defenderam uma postura baseada no diálogo, reconhecendo que a aprovação da matéria depende da construção de entendimento com o presidente da Casa.
Enquanto isso, o governo tenta reconstruir a interlocução política. A missão tem sido conduzida pela líder do governo no Senado, Teresa Leitão, e pelo líder do PT na Casa, Camilo Santana. Ambos são apontados como parlamentares com bom relacionamento junto a Alcolumbre e trabalham para reduzir as tensões entre o Executivo e o Senado.
Apesar do desgaste acumulado nos últimos meses, integrantes do governo afirmam que ainda existe espaço para uma reaproximação entre Lula e Davi Alcolumbre. A expectativa é que uma reunião entre os dois possa ocorrer nas próximas semanas para tentar destravar as negociações e permitir o avanço das pautas consideradas prioritárias pelo Palácio do Planalto antes da intensificação da disputa eleitoral.



