Atrito com filhos não freia Michelle, que volta a disparar

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou a mirar o ex-governador Ciro Gomes nesta segunda-feira (22), reacendendo um embate político que já havia provocado ruídos dentro do próprio campo bolsonarista. Em uma sequência de publicações nas redes sociais, Michelle reforçou sua oposição a qualquer aproximação entre o PL e o político cearense, hoje filiado ao PSDB e cotado para disputar o governo do Ceará. A movimentação ocorre meses depois de um desgaste público envolvendo os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, que criticaram a atuação dela quando o tema da aliança passou a dividir o partido. Agora, Michelle retoma o assunto usando como gancho declarações recentes de Ciro sobre a disputa presidencial e sobre o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto.
Nas postagens, Michelle compartilhou um vídeo em que um influenciador afirma que ela “tinha razão” ao se opor à tentativa de acordo entre o PL e Ciro no Ceará. A publicação se refere à entrevista concedida pelo ex-governador à revista Veja na semana passada, quando ele afirmou que Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seriam “iguais”. A ex-primeira-dama também reproduziu outro trecho em que Ciro descarta apoiar o senador em uma eventual disputa presidencial. Ao comentar o episódio, Michelle indicou que sua resistência ao nome de Ciro nunca foi circunstancial, mas política. Segundo ela, o movimento no Ceará não tinha relação com um esforço para derrotar o PT, e sim com projetos de poder. Ela ainda afirmou que gravou um vídeo explicando o que ocorreu nos bastidores da negociação e prometeu divulgar esse material em breve.
A nova ofensiva remete diretamente ao episódio ocorrido em novembro do ano passado, quando Michelle já havia atacado a tentativa de costura entre o PL e Ciro no Ceará. Na ocasião, o deputado André Fernandes, aliado de Bolsonaro no estado, atuava para viabilizar um entendimento que previa o apoio do PL à candidatura de Ciro ao governo cearense. Em troca, o partido teria espaço na composição da chapa, com a possibilidade de indicar um nome para o Senado. Michelle se posicionou publicamente contra a ideia e, durante um evento de lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão ao governo do Ceará, fez uma crítica direta à aliança. Ela afirmou que não fazia sentido apoiar “o homem que é contra o maior líder da direita”, numa referência a Jair Bolsonaro, deixando claro que via o acordo como uma contradição política.
A fala provocou forte reação entre os filhos do ex-presidente. Flávio Bolsonaro foi um dos primeiros a se manifestar e afirmou, à época, que Michelle havia atropelado Jair Bolsonaro ao se posicionar sobre uma articulação que, segundo ele, já tinha o aval do ex-presidente. Carlos Bolsonaro e Jair Renan também endossaram a crítica, reforçando a avaliação de que a ex-primeira-dama teria se precipitado ao tratar do tema publicamente. Eduardo Bolsonaro foi ainda mais duro e classificou a postura da madrasta como “desrespeitosa”, argumentando que André Fernandes não estava agindo às escondidas e que a construção política contava com sinal verde de Bolsonaro. O episódio expôs uma fissura rara e barulhenta no entorno do ex-presidente, justamente em um momento em que o PL buscava ampliar alianças regionais de olho nas eleições de 2026.
Michelle, porém, não recuou. Naquele momento, rebateu os enteados e defendeu o direito de discordar da estratégia adotada pelo partido, mesmo que ela não coincidisse com a vontade de Bolsonaro. A avaliação da ex-primeira-dama era a de que uma aproximação com Ciro enfraqueceria a coerência do discurso bolsonarista no Ceará, especialmente por envolver um adversário que, em vários momentos, fez críticas duras ao ex-presidente e à direita. A resistência dela acabou produzindo efeito prático: depois da polêmica, o PL decidiu frear as conversas com Ciro e colocar as negociações em compasso de espera. Na época, Flávio tentou amenizar o desgaste e afirmou que havia ocorrido apenas um “ruído de comunicação”, alegando que Michelle não conhecia os detalhes do acordo costurado pela legenda no estado.
O retorno do tema agora mostra que a ex-primeira-dama não apenas mantém a mesma posição, como pretende reforçá-la em público. Ao compartilhar trechos das falas de Ciro e ressuscitar o episódio do Ceará, Michelle sinaliza que não aceita reaproximações com lideranças que considera hostis ao bolsonarismo, sobretudo em um momento em que o campo da direita tenta reorganizar suas forças para 2026. Também chama atenção o fato de ela ter escolhido o embate num momento em que Flávio Bolsonaro tenta se consolidar como nome viável à sucessão presidencial. Ao destacar que Ciro já descartou apoiá-lo e que nunca esteve comprometido com um projeto de oposição ao PT, Michelle atinge dois alvos de uma vez: enfraquece a ideia de entendimento regional com o ex-governador e ainda reforça o discurso de que o bolsonarismo precisa manter sua identidade sem concessões a alianças consideradas contraditórias.
A movimentação também recoloca Michelle em posição de protagonismo dentro do PL e do universo bolsonarista. Desde que passou a atuar de forma mais direta na política, ela deixou de ser apenas um nome associado à imagem do ex-presidente e passou a interferir em decisões, articulações e disputas de narrativa. O caso envolvendo Ciro Gomes virou um dos símbolos dessa transição, porque mostrou que sua opinião pode embaralhar negociações já encaminhadas e até confrontar interesses de aliados próximos da família Bolsonaro. Ao voltar à carga contra o ex-governador, Michelle indica que o assunto está longe de ser enterrado e que pretende manter pressão sobre o partido no Ceará. Se o vídeo prometido for mesmo divulgado, a crise que parecia arquivada pode ganhar novos capítulos — e, como costuma acontecer nesse grupo, com briga pública, indireta afiada e pouca sutileza.



