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André Mendonça corta laços com bolsonarismo, avalia Maierovitch

O ministro André Mendonça passou a ser visto, nos últimos dias, como uma peça menos previsível no tabuleiro político e jurídico ligado ao bolsonarismo. A avaliação foi feita pelo jurista Wálter Maierovitch durante o UOL News desta segunda-feira (22), ao comentar decisões recentes do magistrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para o comentarista, Mendonça tem demonstrado um movimento de distanciamento em relação ao grupo político que apoiou sua indicação ao Supremo Tribunal Federal, adotando uma postura mais técnica e independente em julgamentos sensíveis envolvendo figuras da direita.

A análise ganhou força após o ministro negar um pedido apresentado pelo PL para retirar do ar uma publicação de Guilherme Boulos, deputado federal do PSOL por São Paulo, contra o senador Flávio Bolsonaro. Na leitura de Maierovitch, a decisão ajuda a reforçar a percepção de que Mendonça vem rompendo com o que chamou de “cordão umbilical” que o ligava ao bolsonarismo. Segundo ele, o ministro surpreende justamente por não atuar da forma que muitos esperavam desde sua chegada à Suprema Corte, mostrando-se mais distante de pressões partidárias e menos alinhado automaticamente aos interesses do campo conservador.

Durante o programa, Maierovitch afirmou que Mendonça tem exercido sua função com isenção e que esse comportamento chama atenção sobretudo no contexto eleitoral. O jurista lembrou que o ministro ocupa hoje uma posição estratégica dentro do TSE. Como vice-presidente da Corte, ele também exerce o posto de corregedor-geral da Justiça Eleitoral, cargo que concentra parte importante da fiscalização do processo eleitoral e costuma receber, num primeiro momento, representações, pedidos de investigação e ações relacionadas à disputa política. Em outras palavras, não se trata de um posto decorativo: é uma cadeira que pode influenciar diretamente o tom da corrida eleitoral de 2026.

A observação de Maierovitch parte justamente desse peso institucional. Na avaliação dele, as decisões tomadas por Mendonça até aqui sinalizam que o ministro quer se firmar como alguém capaz de atuar sem submissão ao grupo político que o patrocinou no passado. O comentarista afirmou que o magistrado tem decidido “muito bem” e de forma “isenta”, sugerindo que o comportamento recente contrasta com a desconfiança que cercava sua atuação desde a nomeação ao STF. Quando foi indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro, Mendonça passou a carregar a marca de ser o nome “terrivelmente evangélico” defendido pelo ex-chefe do Planalto, o que alimentou dúvidas sobre sua autonomia em casos envolvendo bolsonaristas.

O gesto de negar o pedido do PL, portanto, acabou ganhando valor simbólico. Embora a decisão em si diga respeito a um caso específico, ela foi lida por analistas como parte de uma sequência de sinais de independência. Em meio ao avanço da pré-campanha presidencial, ao acirramento da disputa entre campos ideológicos e à judicialização crescente da política, qualquer manifestação do TSE tende a ser examinada com lupa. E quando o autor da decisão é um ministro frequentemente associado ao bolsonarismo, o impacto político se torna ainda maior. Não à toa, a atuação de Mendonça passou a ser observada com mais atenção tanto por aliados do ex-presidente quanto por adversários.

Maierovitch também destacou que o papel do ministro deve seguir no centro do noticiário jurídico e eleitoral nos próximos meses, justamente porque o TSE deverá ser chamado a arbitrar conflitos cada vez mais sensíveis. A tendência é que disputas envolvendo propaganda, uso de redes sociais, acusações entre candidatos e questionamentos sobre condutas em campanha cheguem à Corte com frequência. Nesse cenário, o corregedor eleitoral se transforma em personagem-chave, já que muitas dessas demandas passam inicialmente por sua análise. Por isso, o comportamento de Mendonça não interessa apenas ao meio jurídico: interessa diretamente aos partidos, aos candidatos e ao próprio equilíbrio institucional do processo eleitoral.

A fala de Maierovitch, no fim das contas, resume uma mudança de percepção que começa a se desenhar em torno do ministro. Ainda é cedo para afirmar que Mendonça tenha rompido definitivamente com a imagem de magistrado identificado com o bolsonarismo, mas decisões como a que envolveu Flávio Bolsonaro e Guilherme Boulos ajudam a construir essa narrativa de autonomia. Em um ambiente político acostumado a desconfiar de neutralidade, qualquer sinal de independência vira manchete. E, ao que tudo indica, André Mendonça começa a entender que, no jogo pesado da Justiça Eleitoral, parecer isento não basta — é preciso também decidir de forma que essa independência fique escancarada.

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