Ministro André Mendonça defende autocontenção judicial e respeito ao Legislativo

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, defendeu nesta sexta-feira a necessidade de autocontenção do Poder Judiciário e o respeito às decisões do Legislativo. Durante o 16º Simpósio de Direito Constitucional, realizado em Curitiba, Mendonça afirmou que não compete ao Judiciário exercer um papel criativo ou inovador sobre a legislação aprovada pelo Congresso Nacional. A declaração reacende o debate sobre os limites da atuação dos tribunais superiores em um contexto de frequentes tensões entre os Poderes.
Para o ministro, a lei deve ser fruto exclusivo da vontade popular expressa por meio dos representantes eleitos. “Não cabe ao Poder Judiciário, além da interpretação, ter um papel criativo ou inovador em torno da legislação”, disse Mendonça. Ele argumentou que o grande ponto de tensão institucional atual reside exatamente na capacidade do Judiciário de respeitar o que é promulgado pelo Legislativo, reforçando o princípio da legalidade como pilar da democracia.
A posição de Mendonça se alinha a uma corrente doutrinária que critica o chamado ativismo judicial. Segundo ele, quando o Judiciário avança sobre competências legislativas, enfraquece a separação de Poderes e compromete a previsibilidade jurídica. O ministro enfatizou que a autocontenção não significa omissão, mas sim o exercício da jurisdição dentro dos limites constitucionais, preservando a legitimidade democrática das leis.
Especialistas ouvidos em eventos semelhantes observam que o tema ganha relevância em um momento no qual o STF tem sido criticado por decisões que, na visão de setores políticos e jurídicos, extrapolam a mera interpretação constitucional. Mendonça tem se destacado como uma voz recorrente na defesa de maior deferência aos outros Poderes, especialmente após controvérsias envolvendo temas como políticas públicas e regulação econômica.
A fala ocorre em um cenário de tentativas de diálogo institucional entre STF, Congresso e Executivo. Parlamentares de diferentes espectros têm apresentado propostas para delimitar o poder de ministros, como a regulamentação do uso de liminares monocráticas e a definição de parâmetros para o controle de constitucionalidade. O posicionamento de Mendonça pode ser interpretado como um sinal de disposição do tribunal para reduzir atritos.
Apesar do tom conciliador, a defesa da autocontenção não elimina divergências internas no Supremo. Outros ministros historicamente sustentam que o Judiciário tem o dever de proteger direitos fundamentais mesmo quando isso implica suprir omissões legislativas, especialmente em temas sensíveis como saúde, meio ambiente e minorias. O equilíbrio entre ativismo e contenção continua a dividir opiniões no meio jurídico.
O discurso de Mendonça reforça a expectativa de que o Supremo possa adotar uma postura mais deferente ao Legislativo nos próximos anos. Analistas avaliam que, em um período de polarização política, a autocontenção judicial pode contribuir para a estabilização institucional, fortalecendo a credibilidade do sistema de freios e contrapesos previsto na Constituição de 1988.



