Trump, PCC e CV: o método por trás da classificação de facções como terroristas

A decisão do governo de Donald Trump de incluir o PCC e o Comando Vermelho na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras reacendeu um debate delicado entre segurança pública, diplomacia e interesses políticos. O anúncio, feito em meio a um cenário eleitoral movimentado nos Estados Unidos e também no Brasil, foi interpretado por especialistas como algo que vai além do combate ao crime organizado.
Nos bastidores da política internacional, a medida é vista por analistas como um gesto de forte impacto simbólico. Desde o início de 2025, a gestão republicana ampliou de forma acelerada a lista de grupos classificados como terroristas. Em anos anteriores, normalmente apenas dois grupos eram adicionados anualmente. Desta vez, foram mais de duas dezenas em poucos meses, mostrando uma mudança clara de estratégia.
Para o professor Brian J. Phillips, especialista em terrorismo e segurança internacional da Universidade de Essex, no Reino Unido, existe um componente doméstico importante nessa decisão. Segundo ele, o governo americano busca transmitir ao eleitorado a ideia de firmeza no enfrentamento ao crime internacional, especialmente em um período marcado por discursos duros sobre imigração, tráfico e segurança de fronteiras.
Ao mesmo tempo, Phillips avalia que o uso da classificação terrorista também serve como instrumento político e diplomático.
Na prática, esse enquadramento abre espaço para medidas mais rígidas e amplia o poder de atuação das autoridades americanas em operações internacionais. O especialista lembra que o atual governo já utilizou argumentos ligados ao contraterrorismo para justificar ações militares e sanções em outros países da América Latina.
O caso da Venezuela aparece como exemplo constante nas análises. Para muitos observadores internacionais, a ofensiva americana contra o governo de Nicolás Maduro criou um precedente que passou a preocupar lideranças da região. Ainda assim, Phillips pondera que o Brasil vive uma realidade diferente, tanto do ponto de vista econômico quanto diplomático.
Apesar disso, o momento do anúncio chamou atenção. A decisão ocorreu logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro à Casa Branca. Para parte dos especialistas, o timing reforça a percepção de aproximação ideológica entre aliados políticos brasileiros e o governo republicano americano.
O pesquisador britânico destaca que governos costumam utilizar temas ligados à segurança para fortalecer alianças e sinalizar preferências políticas. Ele lembra que Trump já demonstrou apoio público a lideranças conservadoras em outros países, incluindo o britânico Nigel Farage.
Nesse contexto, a decisão envolvendo facções brasileiras passou a ser observada também sob um viés eleitoral.
Especialistas brasileiros da área de segurança pública demonstram preocupação principalmente com os efeitos práticos da medida.
Hoje, grande parte da cooperação entre Brasil e Estados Unidos ocorre por meio de órgãos policiais e investigações técnicas. Com a mudança de classificação, existe receio de que a lógica militar e de inteligência ganhe mais espaço do que o trabalho tradicional de investigação criminal.
Outro ponto levantado é o risco de desgaste diplomático. Países europeus, por exemplo, têm preferido fortalecer ações policiais e judiciais no combate ao crime organizado, sem recorrer à classificação de grupos criminosos como terroristas. A Itália costuma ser citada como referência nesse modelo, apostando em investigações financeiras, inteligência policial e integração entre instituições.
Enquanto isso, o debate segue crescendo no Brasil. Para alguns setores, a medida americana representa um endurecimento necessário contra organizações criminosas. Para outros, trata-se de uma decisão carregada de simbolismo político e interesses estratégicos em um momento sensível para a relação entre os dois países.
Independentemente das interpretações, o episódio mostra como segurança pública e política internacional estão cada vez mais conectadas. E, em tempos de polarização global, decisões desse tipo dificilmente passam despercebidas.



