Lula pode dobrar aposta e escolher uma mulher negra para STF

A política brasileira vive dias em que o improvável se torna rotina. A recente rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal escancarou esse cenário. O episódio, envolvendo diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, trouxe à tona uma dinâmica que, até pouco tempo atrás, seria considerada fora do padrão institucional.
Desde a redemocratização, raramente se viu um governo federal com tanta dificuldade de articulação no Congresso.
Mais do que isso: a atuação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, chamou atenção pela forma direta com que se posicionou — ainda que nos bastidores — contra a escolha do Planalto. O resultado foi uma derrota simbólica, mas também prática, com impactos que vão além da vaga no Supremo.
O contexto ajuda a entender o peso dessa decisão. Em meio a uma campanha eleitoral acirrada para o Senado, pautas relacionadas ao Judiciário ganharam força entre eleitores.
Discursos sobre limites de atuação do Supremo passaram a ocupar espaço nos palanques e nas redes sociais, influenciando o ambiente político. Nesse cenário, a indicação de Messias acabou sendo interpretada por parte dos senadores como um movimento alinhado demais ao governo.
Nos bastidores, a articulação foi intensa. Partidos como PP, PSD, PSDB e Republicanos se somaram à oposição, formando uma base robusta contra o nome indicado.
Curiosamente, enquanto isso acontecia, declarações públicas davam a impressão de equilíbrio. O senador Rodrigo Pacheco, por exemplo, chegou a sinalizar apoio, criando uma espécie de “zona de conforto” para o governo — que não se confirmou na votação.
Outro elemento que permeou o debate foi a identidade religiosa do indicado. Messias, evangélico, teve sua trajetória questionada sob diferentes ângulos. Parte dos críticos argumentou que sua atuação institucional falava mais alto do que sua fé, especialmente em temas sensíveis. Essa narrativa, ainda que controversa, foi utilizada como justificativa por alguns parlamentares.
Diante da derrota, surgiram especulações sobre os próximos passos do governo. Entre elas, a possibilidade de indicar uma mulher negra para a vaga, como Adriana Cruz, magistrada com atuação destacada em casos de lavagem de dinheiro e com passagem pelo gabinete de Luís Roberto Barroso. Uma escolha com esse perfil poderia mudar o eixo do debate e reposicionar o governo politicamente.
Há também quem veja paralelos internacionais. Nos Estados Unidos, durante o governo de Barack Obama, a indicação de Merrick Garland para a Suprema Corte foi barrada no Senado, então liderado por Mitch McConnell. O caso acabou influenciando o equilíbrio da Corte anos depois.
No Brasil, ainda é cedo para prever consequências semelhantes, mas o episódio já entrou para a história recente.
Curiosamente, alguns analistas questionam o nível de empenho do próprio governo na aprovação de Messias. Há relatos de que, após formalizar a indicação, Lula não teria mantido uma articulação constante com o Senado. Ao mesmo tempo, Alcolumbre teria trabalhado com precisão na construção da maioria contrária, inclusive antecipando o resultado a aliados próximos, como Jaques Wagner.
No fim das contas, o episódio revela mais do que uma simples rejeição. Ele expõe um rearranjo de forças, onde o Executivo enfrenta resistência crescente e o Legislativo assume protagonismo. Para o governo, resta agora o desafio de recalibrar sua estratégia — sabendo que, no cenário atual, o inesperado deixou de ser exceção.



