Deputado e pastor faz revelação chocante após operação no RJ

O deputado federal e pastor Otoni de Paula (MDB-RJ) emocionou a Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (30) ao relatar um episódio trágico e, segundo ele, revoltante: quatro jovens filhos de membros de sua igreja foram mortos durante a megaoperação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A ação, que começou na terça-feira (29), deixou dezenas de mortos e reacendeu o debate sobre a violência nas favelas e o uso excessivo da força por parte das autoridades.
Durante um discurso forte e carregado de emoção, Otoni afirmou que os rapazes não tinham qualquer envolvimento com o crime organizado. “Aqui quem está falando é pastor, e não é pastor progressista, não. Só de filho de gente de igreja eu sei que morreram quatro ontem. Meninos que nunca portaram fuzis, mas estão sendo contados no pacote como se fossem bandidos”, declarou.
O parlamentar prosseguiu com um dos trechos mais impactantes de seu pronunciamento:
“Sabe quem é que vai saber se são bandidos ou se não são? Ninguém. E sabe por quê? Porque preto correndo em dia de operação na favela é bandido. Preto de chinelo Havaiana, sem camisa, pode ser trabalhador — mas correu, é bandido.”
As palavras ecoaram no plenário e ganharam as redes sociais. Otoni de Paula, que também é pastor do Ministério Missão de Vida, fundado em 1998, falou sobre o medo constante de pais negros que vivem nas comunidades do Rio.
“É fácil, senhoras e senhores, pra quem está no asfalto e não conhece a realidade da favela, dizer: ‘Que bom, matou’. É fácil, porque o filho de vocês não está lá dentro. O meu está, e meu pânico é que ele é preto”, disse, com a voz embargada.
Em outro momento, o deputado revelou o tipo de conversa que é obrigada a ter com o próprio filho:
“Ontem eu tive que dizer: ‘Vai pra casa. Que roupa você está vestindo?’. Porque meu filho no Rio não anda de chinelo. Eu ensino a ele que tem que andar de roupa bonita, porque é preto. E só depois que derem um tiro nele é que vão saber que é filho de um preto deputado.”
As falas de Otoni de Paula rapidamente repercutiram nas redes, dividindo opiniões. Enquanto muitos internautas elogiaram a coragem do parlamentar por expor a violência estrutural e o racismo que afetam as periferias, outros criticaram o discurso, alegando que ele estaria “politizando” uma operação policial que visava combater o tráfico.
O fato é que o depoimento do deputado colocou um rosto humano nas estatísticas. Em meio aos números frios divulgados pela Secretaria de Segurança Pública, as histórias de jovens que perderam a vida sem chance de defesa voltaram a ser tema de debate nacional.
A megaoperação, considerada uma das maiores já realizadas no Rio, mobilizou forças das polícias Civil, Militar, Federal e Rodoviária Federal, e deixou um rastro de destruição, medo e dor nas comunidades.
Otoni encerrou seu discurso pedindo investigação e empatia: “O problema não é ser contra a polícia. O problema é ser contra o abuso, contra o racismo que mata. A favela não é território de guerra, é território de gente.”
Num momento em que o país ainda tenta entender o impacto da operação, o desabafo do deputado-pastor serviu como lembrete de que, por trás das manchetes, há famílias chorando e uma sociedade que ainda precisa aprender a enxergar a cor da dor.



