Castro manda recado a Moraes e alega que houve manipulação

O clima político e social no Rio de Janeiro segue tenso após a Operação Contenção, ação policial que deixou mais de cem mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte carioca. Em meio às críticas sobre a letalidade das forças de segurança, o governador Cláudio Castro (PL) anunciou, nesta quinta-feira (28), que vai se reunir com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para discutir o tema. O encontro, segundo ele, está marcado para a próxima segunda-feira, 3 de novembro.
O anúncio foi feito por meio de um vídeo divulgado nas redes sociais, no qual Castro aparece em uma reunião com a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados. Durante o encontro, o governador reafirmou a legitimidade da operação e acusou grupos locais de fraude processual ao manipular corpos após os confrontos.
Defesa da operação e acusações de manipulação
Cláudio Castro voltou a exibir as imagens divulgadas na quarta-feira (27), que, segundo ele, mostram moradores retirando corpos da mata e trocando as roupas das vítimas. “O Estado não escondeu corpo algum. Não foi o Estado que botou ninguém de cueca, tirando os camuflados. O Estado deixou onde estava para que a perícia pudesse agir com isenção”, afirmou.
Em tom firme, o governador insistiu que as ações das polícias foram conduzidas de forma legal e que a reunião com Moraes servirá para “mostrar transparência e responsabilidade”. Ele adiantou que o encontro não acontecerá no Palácio Guanabara, mas “na casa das polícias”, um gesto simbólico para reforçar o compromisso com a fiscalização e o diálogo com os órgãos de controle.
“Não temos medo de órgão de controle algum. Estamos trabalhando com honestidade, com a verdade e com seriedade. Qualquer autoridade que quiser vir, pode vir — desde que venha somar, não fazer politicagem”, declarou Castro, em um recado direto aos críticos da operação.
Investigação sobre fraude processual
Enquanto o governador defendia a atuação das forças de segurança, o secretário da Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, confirmou que moradores que participaram da remoção dos corpos na mata do Complexo da Penha estão sendo investigados por fraude processual. Segundo o secretário, mais de 70 corpos foram levados por pessoas da comunidade até a praça São Lucas, ponto que acabou se tornando o centro da comoção após os confrontos.
As imagens, que circularam amplamente nas redes sociais e em noticiários de todo o país, mostram familiares e vizinhos reunidos ao redor dos corpos, em cenas que causaram profunda indignação. No entanto, de acordo com Curi, há indícios de que algumas pessoas retiraram roupas e equipamentos das vítimas, alterando o cenário original.
“Temos imagens de pessoas retirando as roupas dos marginais e colocando os corpos em via pública. Essas pessoas serão responsabilizadas. Muitos desses homens estavam equipados com coletes e roupas camufladas, mas agora aparecem só de cueca ou bermuda, como se tivessem trocado de roupa no caminho”, detalhou o secretário.
Um Rio dividido entre o medo e a desconfiança
A Operação Contenção, que mobilizou mais de 2,5 mil agentes e resultou na apreensão de 118 armas, segue sendo alvo de críticas de organizações de direitos humanos, que classificam a ação como a mais letal do século 21 no país. Já o governo do estado mantém o discurso de que a ofensiva foi necessária para conter o avanço do Comando Vermelho e retomar o controle de áreas dominadas pelo tráfico.
Com a reunião entre Cláudio Castro e Alexandre de Moraes marcada para a próxima semana, o Rio se prepara para um novo capítulo no debate sobre violência, segurança pública e limites da ação policial — temas que, mais uma vez, escancaram a complexa realidade das favelas cariocas.



