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Em menos de 48 horas, Soraya perde reeleição ao Senado e vê STF arquivar acusação contra Alfredo Gaspar

A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) enfrentou dois reveses políticos em sequência nesta semana. Depois de não conseguir renovar seu mandato no Senado Federal nas eleições de domingo, 4 de outubro, a parlamentar viu o Supremo Tribunal Federal determinar, na terça-feira, 6, o arquivamento de uma investigação contra o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), atual candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. O procedimento havia sido aberto após uma notícia de fato apresentada por Soraya e pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), envolvendo uma acusação de estupro de vulnerável. A decisão foi tomada pelo ministro Gilmar Mendes após manifestação da Procuradoria-Geral da República, que apontou falta de elementos suficientes para sustentar o prosseguimento da apuração. 

No primeiro desses episódios, Soraya ficou fora das duas vagas ao Senado disponíveis em Mato Grosso do Sul. A parlamentar, eleita em 2018, terminou a eleição de 2026 em quarto lugar, com aproximadamente 13,07% dos votos válidos. As duas cadeiras foram conquistadas por candidatos do PL: o ex-governador Reinaldo Azambuja ficou com cerca de 34,64% dos votos, enquanto Capitão Contar alcançou aproximadamente 32,82%. O deputado Vander Loubet (PT) terminou em terceiro lugar, com 13,88%, também à frente da senadora. Dessa forma, Soraya encerrará seu mandato em janeiro de 2027. 

A derrota eleitoral chamou atenção também por causa da trajetória política da parlamentar. Soraya foi eleita em 2018 em um ambiente fortemente associado ao então candidato Jair Bolsonaro, mas rompeu posteriormente com o ex-presidente e passou a fazer críticas públicas ao grupo político bolsonarista. Em 2026, sua candidatura ocorreu em um contexto político diferente daquele que a levou ao Senado oito anos antes. Essa mudança de posicionamento passou a ser explorada por adversários ao longo da campanha, embora o resultado eleitoral, por si só, não permita atribuir sua derrota a um único fator. Desempenho partidário, composição das chapas, presença de outros candidatos competitivos e características do eleitorado estadual também influenciam disputas majoritárias.

Pouco mais de um dia depois da eleição, outro assunto envolvendo Soraya voltou às manchetes. Gilmar Mendes determinou o arquivamento de uma investigação contra Alfredo Gaspar. A apuração havia começado depois que Soraya Thronicke e Lindbergh Farias apresentaram à Polícia Federal uma notícia de fato acusando o deputado de ter mantido relação sexual, anos atrás, com uma adolescente de 13 anos. Segundo a representação, o episódio teria resultado em uma gravidez. Também foram apresentadas alegações relacionadas a uma suposta tentativa de suborno para encobrir o caso. Gaspar sempre negou as acusações. 

A Polícia Federal chegou a pedir ao Supremo autorização para investigar o caso. Inicialmente, a PGR recomendou que fossem realizadas diligências adicionais antes de uma conclusão definitiva. Essas providências foram autorizadas e executadas. Depois de analisar o material reunido, porém, a Procuradoria passou a defender o arquivamento. Segundo as informações publicadas sobre o parecer, foram identificadas contradições nos depoimentos e falta de elementos probatórios suficientemente consistentes para justificar a continuidade da investigação contra Alfredo Gaspar. Gilmar Mendes concordou com essa avaliação e determinou o encerramento do procedimento. 

Um dos pontos mencionados nas reportagens foi a mudança de versões atribuída a Luiz Antônio Lopes, apontado como uma das principais fontes das acusações. Segundo a Folha de S.Paulo, ele apresentou relatos diferentes ao longo do procedimento e posteriormente chegou a afirmar que teria ocorrido uma armação contra Gaspar. Essa circunstância foi considerada dentro do conjunto de informações analisadas pela Procuradoria. É importante destacar, contudo, que o arquivamento não significa que o STF julgou uma ação penal e absolveu Gaspar. Na prática, significa que, diante do material reunido, a PGR entendeu que não existiam elementos suficientes para justificar o prosseguimento daquela investigação, posição posteriormente acolhida por Gilmar. 

Alfredo Gaspar reagiu ao arquivamento afirmando que havia sido alvo de uma acusação injusta. Em declaração ao Metrópoles, ele classificou o episódio como “denunciação caluniosa” e cobrou responsabilização de Soraya e Lindbergh. Essa, porém, é a posição do deputado e não equivale a uma conclusão judicial de que os dois parlamentares tenham cometido crime. Existem outras apurações relacionadas ao conflito, e eventual responsabilização depende de procedimentos específicos, produção de provas e decisões próprias das autoridades competentes. 

O embate entre Gaspar, Soraya e Lindbergh teve origem no ambiente da CPMI do INSS. Gaspar atuava como relator da comissão e, no relatório final, propôs o indiciamento de mais de 200 pessoas, entre elas Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante os debates da comissão houve discussões intensas entre parlamentares, e a notícia de fato apresentada contra Gaspar surgiu nesse contexto. O deputado sempre afirmou que a acusação seria uma reação política ao trabalho realizado na CPMI. Essa interpretação é defendida pelo próprio Gaspar e por seus aliados, mas não constitui, por si só, uma conclusão oficial do STF sobre a motivação dos autores da representação. 

A situação ganhou dimensão ainda maior porque Alfredo Gaspar integra atualmente a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro. O arquivamento ocorre no intervalo entre os dois turnos da eleição e elimina, ao menos naquele procedimento específico, uma investigação de grande repercussão envolvendo o candidato a vice. Interlocutores da campanha de Flávio interpretaram a decisão, junto com outras movimentações recentes do Supremo, como um possível sinal de abertura institucional ao diálogo, segundo análise publicada pela CNN Brasil. Essa avaliação, entretanto, é atribuída à campanha e não representa uma posição oficial do tribunal. 

Os dois acontecimentos envolvendo Soraya são juridicamente e politicamente independentes. A derrota nas urnas foi resultado da votação do eleitorado de Mato Grosso do Sul. Já o arquivamento da investigação contra Gaspar decorreu de uma análise da PGR sobre os elementos reunidos pela Polícia Federal e de uma posterior decisão de Gilmar Mendes. A proximidade entre os episódios ajuda a explicar a repercussão política, mas não existe relação causal entre um fato e outro.

Assim, o cenário objetivo é que Soraya Thronicke deixará o Senado ao fim do atual mandato depois de terminar em quarto lugar na eleição de Mato Grosso do Sul, enquanto a investigação iniciada a partir da acusação apresentada por ela e Lindbergh contra Alfredo Gaspar foi encerrada pelo STF por falta de elementos considerados suficientes para seu prosseguimento. Em menos de 48 horas, portanto, a senadora enfrentou uma derrota eleitoral e uma decisão judicial desfavorável a uma das iniciativas políticas mais controversas das quais participou neste ano. 

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