Gilmar homenageia Fachin no STF e faz críticas indiretas a Mendonça por ‘vazamentos seletivos’

O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, aproveitou o início da sessão desta quarta-feira (30) para prestar homenagem ao ministro Edson Fachin, que completa um ano à frente da presidência da Corte. Em discurso proferido no plenário, em meio a um clima de tensão interna, Mendes elogiou a postura de equilíbrio do presidente e, por comparação com o passado, fez críticas indiretas à condução de investigações recentes, mencionando a ocorrência de “vazamentos seletivos” e o uso político-eleitoral de informações. Embora não tenha citado nomes, a referência recai sobre o ministro André Mendonça e os desdobramentos do Caso Master.
Gilmar Mendes recorreu à memória da Operação Lava Jato para estabelecer um padrão de conduta que, segundo ele, deveria prevalecer também hoje. “Naquela quadra, não houve notícias de vazamentos seletivos em nossos gabinetes, apesar da sensibilidade dos documentos que estavam sob nossa responsabilidade, tampouco qualquer ato que pudesse indicar uso político-eleitoral das investigações”, afirmou. A comparação sinaliza preocupação com a forma como informações sobre o Banco Master têm chegado ao conhecimento público, em meio à proximidade das eleições e à disputa entre candidatos à Presidência.
O decano reconheceu que, durante a tramitação da Lava Jato, suas convicções processuais frequentemente divergiram das de Fachin, mas ressaltou que essas diferenças nunca abalaram princípios fundamentais partilhados pelos dois. “Nossos votos apontaram muitas vezes em sentidos opostos, a partir de compreensões distintas sobre o processo penal. Essa divergência, porém, jamais alcançou aquilo que nos unia: a convicção de que o juiz não é parte, nem instrumento de causa alguma”, prosseguiu, reforçando que a neutralidade deve sobrepor-se a quaisquer alinhamentos ou preferências.
Ao enaltecer a gestão de Fachin, Gilmar destacou especialmente a capacidade de manter serenidade em cenário de acirramentos. “Em um ambiente de temperatura elevada, Vossa Excelência tem mantido o tom sóbrio, a palavra medida e o comprometimento integral com a manutenção da constância, da tranquilidade e do ethos decisórios do Tribunal”, declarou. O elogio ressalta a postura que o decano considera ideal: a de um presidente que preserva a instituição acima de controvérsias e evita que a Corte se torne palco de disputas externas.
O ministro expressou ainda confiança de que Fachin seguirá conduzindo os trabalhos com retidão e contará com o apoio dos demais magistrados. “Tenho a convicção de que Vossa Excelência seguirá fortalecendo esta Corte com serenidade, rigor e retidão, e encontrará em seus pares o apoio necessário para essa tarefa”, afirmou. Ao final do pronunciamento, Gilmar Mendes levantou-se de sua cadeira e abraçou Edson Fachin, gesto que simbolizou, diante do plenário, o reconhecimento mútuo e a disposição de manter a instituição unida.
A homenagem acontece em um momento de visível desgaste entre integrantes do STF, com embates públicos que têm chegado à opinião pública. A menção a vazamentos e apropriação política de apurações não é nova nas declarações de Gilmar Mendes, mas ganha peso especial ao ser feita diante de toda a Corte e direcionada ao presidente do Tribunal. A mensagem subjacente é clara: a conduta dos magistrados deve ser pautada por transparência e imparcialidade, sem que informações sensíveis sejam usadas para influenciar o debate eleitoral.
A sociedade acompanha com atenção esses sinais de convergência e tensão. A estabilidade das instituições democráticas depende, em grande medida, da confiança que os cidadãos depositam na Justiça. Por isso, cada gesto, cada palavra e cada decisão proferida no Supremo carregam um significado que transcende as paredes do plenário. O desafio que se apresenta agora é de todos: garantir que a verdade prevaleça, que os processos avancem com clareza e que a Corte permaneça fiel ao seu papel de guardiã da Constituição, acima de quaisquer disputas.



