GloboNews pede desculpas após informação incorreta sobre evangélicos e Nossa Senhora Aparecida

A GloboNews divulgou uma correção e pediu desculpas após uma informação apresentada durante o programa Em Pauta provocar forte repercussão nas redes sociais em plena reta final das eleições de 2026. O episódio começou quando a comentarista Maria Cristina Fernandes afirmou que existiria uma reação dentro da Igreja Católica a uma suposta mobilização de parte dos evangélicos para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Horas depois, o canal reconheceu que a proposta mencionada não era atual: tratava-se de um projeto apresentado em 2007 e arquivado no ano seguinte. A correção foi transmitida na madrugada de sexta-feira (25), durante o GloboNews Edição da Meia-Noite, e terminou com um pedido público de desculpas pelo erro.
A declaração original ganhou uma dimensão ainda maior porque passou a circular nas redes associada ao senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República. Publicações começaram a afirmar que Flávio pretendia retirar, ou apoiaria uma iniciativa para retirar, o título concedido a Nossa Senhora Aparecida caso chegasse à Presidência. Essa associação, porém, não corresponde aos fatos verificados: o projeto citado é antigo e não foi apresentado por Flávio Bolsonaro. A própria fala exibida inicialmente pela GloboNews também não atribuía diretamente a autoria da proposta ao candidato. Com a rápida circulação de recortes e interpretações nas plataformas digitais, entretanto, a história ganhou grande alcance e passou a integrar o debate eleitoral.
O projeto que está na origem da controvérsia é o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli. A proposta pretendia modificar a legislação relacionada ao feriado de 12 de outubro, substituindo a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O texto foi analisado na Câmara dos Deputados, rejeitado pela Comissão de Educação e Cultura em 2008 e posteriormente arquivado. Portanto, não existe atualmente uma proposta desse período em tramitação para realizar a alteração mencionada. Ao fazer a correção, a GloboNews esclareceu justamente esse ponto: o projeto havia sido apresentado em dezembro de 2007 e arquivado pela Mesa Diretora da Câmara em agosto de 2008.
Flávio Bolsonaro reagiu publicamente à repercussão e negou qualquer intenção de promover uma mudança no título de Nossa Senhora Aparecida. O senador afirmou que respeita diferentes religiões e também pessoas que não seguem uma crença religiosa. Sua campanha passou a tratar a história como desinformação e avaliou medidas para identificar perfis responsáveis pela propagação das publicações. A polêmica ganhou força também por causa de declarações anteriores do candidato relacionadas à religião, que passaram a ser recuperadas e reinterpretadas durante a campanha. É importante distinguir, contudo, essas declarações políticas da afirmação específica que viralizou: as fontes consultadas não apontam a existência de um projeto atual de Flávio Bolsonaro destinado a retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
A velocidade da repercussão ajuda a dimensionar o episódio. Levantamento da Vox Radar, encomendado pela CNN e divulgado pela imprensa, identificou 180.857 comentários sobre o assunto em apenas 20 horas, provenientes de quase 140 mil perfis. O conteúdo também acumulou cerca de 902 mil curtidas no período analisado. Segundo o levantamento, inicialmente predominavam comentários que acreditavam na história, enquanto a correção e os desmentidos posteriores tiveram alcance desigual entre diferentes grupos. O caso demonstra um dos principais desafios da comunicação durante períodos eleitorais: uma informação incorreta pode alcançar centenas de milhares de pessoas antes que esclarecimentos consigam percorrer o mesmo caminho. A combinação entre política, religião e redes sociais ampliou ainda mais a repercussão do episódio.
A retratação da GloboNews encerra a dúvida factual sobre o ponto central da controvérsia, mas não necessariamente encerra sua repercussão política. O projeto utilizado como referência é de 2007, foi arquivado em 2008 e não tem Flávio Bolsonaro como autor. Ao mesmo tempo, a correção provocou um debate entre jornalistas sobre a maneira como o canal tratou o episódio e sobre o alcance que informações imprecisas podem alcançar durante uma eleição. Em um ambiente marcado pela circulação acelerada de vídeos, montagens e pequenos trechos retirados de programas jornalísticos, o episódio reforça a importância de verificar autoria, data e situação legislativa antes de compartilhar uma afirmação. Para o público, especialmente durante uma campanha presidencial, separar declarações de candidatos, interpretações de comentaristas e fatos documentalmente verificáveis torna-se fundamental para compreender o que realmente aconteceu.



