O Ministério da Justiça e Segurança Pública respondeu nesta quarta-feira (16) às críticas feitas pelo governo dos Estados Unidos sobre a atuação brasileira contra o crime organizado. Em nota, a pasta afirmou que o governo brasileiro “refuta quaisquer alegações de que existam falhas ou omissões” no enfrentamento ao crime organizado transnacional. A manifestação ocorreu depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que o Brasil teria falhado no combate a organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A Casa Branca, em documento encaminhado ao Congresso americano, incluiu o Brasil entre os países relacionados ao trânsito ou à produção de drogas, embora não tenha classificado o país entre aqueles apontados como tendo falhado de forma demonstrável em cumprir suas obrigações internacionais de combate aos entorpecentes.
Segundo o Ministério da Justiça, a avaliação divulgada pelos Estados Unidos não levaria em consideração as ações realizadas pelo governo brasileiro contra as organizações criminosas. A pasta citou a aprovação da Lei Antifacção e afirmou que o país realizou milhares de operações de combate ao crime, com participação de forças federais e medidas destinadas a atingir financeiramente grupos criminosos. O governo também mencionou iniciativas desenvolvidas em 2026 dentro do Programa Brasil contra o Crime Organizado, voltadas ao enfrentamento do financiamento das facções, ao fortalecimento do sistema prisional, à investigação de homicídios e ao combate ao tráfico de armas. Nesta quarta-feira, inclusive, a Polícia Federal divulgou a Operação Força Integrada IV, que mobilizou ações coordenadas em diversos estados, com 106 mandados de prisão e 173 de busca e apreensão, além de medidas patrimoniais superiores a R$ 508 milhões.
A manifestação brasileira também destacou que os Estados Unidos não colocaram o Brasil entre os países classificados como aqueles que “falharam demonstravelmente” no cumprimento de compromissos internacionais de combate às drogas. Na lista divulgada pela Casa Branca para o ano fiscal de 2027, quatro países — Afeganistão, Bolívia, Mianmar e Colômbia — receberam essa classificação. O documento americano afirma que a relação de países produtores ou de trânsito de drogas considera fatores geográficos, comerciais e econômicos que podem permitir a produção ou o transporte de drogas e de substâncias utilizadas em sua fabricação. A Casa Branca informou ainda que a determinação presidencial foi encaminhada ao Congresso americano como parte dos procedimentos relacionados à política de combate ao tráfico de drogas dos Estados Unidos.
Apesar dessa distinção no documento oficial, Trump fez críticas específicas ao Brasil ao comentar o combate às organizações criminosas. O presidente americano afirmou que o governo brasileiro deveria adotar medidas mais firmes contra o PCC e o Comando Vermelho antes que esses grupos ampliassem sua atuação. O governo brasileiro contestou essa avaliação e afirmou que a relação entre os dois países na área de segurança já possui mecanismos de cooperação. Segundo a manifestação do Ministério da Justiça, as ações brasileiras e a cooperação bilateral precisam ser consideradas na avaliação do enfrentamento ao crime organizado. A resposta ocorre em um momento de atenção sobre a atuação internacional das facções brasileiras e sobre as medidas adotadas pelos Estados Unidos para impedir que drogas e recursos associados ao tráfico cheguem ao território americano.
Outro ponto de tensão entre os dois governos envolve a classificação do PCC e do Comando Vermelho pelas autoridades americanas. Em maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a designação das duas organizações brasileiras como “Terroristas Globais Especialmente Designados”. A medida permite ao governo americano utilizar instrumentos previstos em sua legislação contra grupos classificados nessa categoria e tem como objetivo atingir estruturas, recursos e pessoas relacionadas às organizações. O governo brasileiro já havia manifestado oposição à classificação, argumentando que uma medida desse tipo poderia ampliar a possibilidade de ações americanas contra grupos criminosos dentro do território brasileiro. A posição brasileira também está relacionada ao debate sobre soberania e sobre os limites da cooperação internacional no combate ao crime organizado.
A troca de declarações ocorre, portanto, em meio a uma discussão mais ampla sobre como Brasil e Estados Unidos devem atuar diante do crime organizado transnacional. De um lado, o governo americano cobra medidas mais firmes contra organizações brasileiras que também possuem conexões com o tráfico internacional de drogas. Do outro, o governo brasileiro afirma que já desenvolve operações, leis e programas específicos para enfrentar as facções e que essas iniciativas não podem ser desconsideradas. A Polícia Federal, por exemplo, realizou nesta quarta-feira ações simultâneas em diferentes estados como parte da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado, enquanto o Ministério da Justiça sustenta que pretende continuar atuando de forma coordenada e soberana. O episódio coloca novamente em evidência a relação entre segurança pública, combate ao tráfico internacional e cooperação entre os dois países.







