Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliaram que o elogio feito pelo chefe do Executivo ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pode dificultar a tentativa do governo de manter distância da crise que envolve o magistrado. A avaliação foi divulgada pela analista de Política da CNN Jussara Soares, após Lula afirmar, durante entrevista ao podcast Desce a Letra, que Moraes “prestou grandes serviços à democracia brasileira”. A declaração ocorreu um dia depois de uma sessão extraordinária do STF que discutiu informações relacionadas a mensagens trocadas entre Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Na ocasião, Lula também procurou afastar a associação entre seu governo e a indicação do ministro, lembrando que não era presidente quando Moraes foi escolhido para o Supremo, em 2017.
Segundo a apuração da CNN, parte dos interlocutores próximos ao presidente considerou que a manifestação foi um erro estratégico no momento atual. A orientação defendida por esses aliados seria que Lula evitasse manifestações que pudessem ser interpretadas como uma defesa pessoal de Moraes e se concentrasse na posição de que eventuais irregularidades devem ser investigadas, independentemente de quem esteja envolvido. A avaliação, conforme relatado pela jornalista, é que o presidente vinha tentando estabelecer uma separação entre seu governo e o ministro, especialmente diante da crise instalada no STF. O elogio feito durante a entrevista, entretanto, teria causado desconforto porque poderia ser utilizado politicamente por adversários para reforçar a associação entre os dois. A CNN atribuiu essa leitura aos aliados consultados, não apresentando a interpretação como uma conclusão independente.
Durante a entrevista, Lula tentou apresentar justamente essa distinção. O presidente afirmou que não foi responsável pela indicação de Moraes ao STF e também lembrou que não participou das escolhas de outros ministros atualmente integrantes da Corte, como Kassio Nunes Marques e André Mendonça. No entanto, ao falar sobre o período em que Moraes presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), durante as eleições de 2022, Lula destacou a atuação do ministro e afirmou que ele prestou serviços à democracia brasileira. O presidente relacionou essa avaliação ao período eleitoral e às disputas em torno da credibilidade das urnas eletrônicas. Em outra parte da entrevista, Lula afirmou que pessoas que tenham cometido erros devem responder por seus atos e defendeu que qualquer julgamento ocorra com direito de defesa.
A preocupação apontada pelos aliados está relacionada também à disputa política envolvendo Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário do presidente nas eleições de 2026. De acordo com a apuração da CNN, integrantes do grupo governista avaliam que setores da oposição vêm tentando associar politicamente Lula a Moraes e que o elogio poderia ser utilizado para fortalecer essa narrativa. Durante a entrevista, Lula rebateu críticas de Flávio e afirmou que não era presidente quando Moraes foi indicado ao Supremo. O presidente também disse que, na avaliação dele, a posição de Flávio contra o ministro estaria relacionada principalmente às decisões tomadas por Moraes em processos envolvendo Jair Bolsonaro e os atos de 8 de janeiro. Essas afirmações correspondem à interpretação apresentada por Lula sobre as motivações de seu adversário e não a uma conclusão independente sobre elas.
A fala também ocorre em um momento de forte tensão institucional no STF. Na terça-feira (15), o plenário analisou uma questão relacionada ao pedido de investigação sobre Moraes a partir de informações da Polícia Federal envolvendo mensagens com Vorcaro. O julgamento não chegou ao mérito da eventual abertura da investigação porque os ministros passaram a discutir se os procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça deveriam ser analisados de forma conjunta. Gilmar Mendes apresentou uma questão de ordem nesse sentido, enquanto Flávio Dino pediu vista e interrompeu a análise. Com isso, a Corte encerrou a sessão sem decidir se abriria uma investigação contra Moraes. O episódio foi marcado por divergências entre ministros e deixou pendentes decisões sobre o rito e o calendário dos próximos julgamentos.
Nesse cenário, os aliados citados pela CNN defendem que Lula mantenha uma postura concentrada na defesa das investigações e do devido processo, evitando declarações que possam ser interpretadas como alinhamento político com qualquer ministro do Supremo. Ao mesmo tempo, o presidente sustenta publicamente que eventuais irregularidades devem ser apuradas e que ninguém deve ficar fora do alcance da Justiça. A combinação entre essa posição e o elogio à atuação anterior de Moraes no TSE passou a ser analisada pelos interlocutores do governo sob diferentes perspectivas. O episódio mostra como declarações presidenciais sobre integrantes do Judiciário podem ganhar peso no ambiente eleitoral de 2026, especialmente enquanto o STF enfrenta uma crise interna e ainda precisa retomar a discussão sobre o caso envolvendo Moraes.







