Morre a primeira mulher trans aprovada em Medicina na UFBA por meio do sistema de cotas

A comunidade acadêmica da Universidade Federal da Bahia (UFBA) recebeu com pesar a notícia da morte de Thaiz Pedrosa, aos 44 anos, nesta quinta-feira, 3. Mineira de origem, ela vivia em Salvador desde 2019, ano em que entrou para o curso de Medicina da instituição e passou a fazer parte de um momento histórico para a universidade. Thaiz foi a primeira mulher trans a ingressar na graduação por meio do sistema de cotas destinado à população trans, iniciativa que naquele período também contemplava pessoas refugiadas. A causa da morte ainda não havia sido informada oficialmente. A confirmação do falecimento foi divulgada pelo diretório acadêmico da Faculdade de Medicina da UFBA, que destacou a importância da trajetória da estudante para a comunidade universitária e para outras pessoas que desejam conquistar espaço no ensino superior.
A entrada de Thaiz na UFBA aconteceu em um período especialmente significativo para a instituição. Em 2019, a universidade passou a oferecer, pela primeira vez, vagas por meio de cotas para pessoas trans e refugiados. Naquele ano, 22 pessoas trans conseguiram ingressar na unidade de ensino por essa modalidade, ampliando a presença de um grupo historicamente pouco representado nos cursos universitários. Entre essas pessoas estava Thaiz, cuja história ganhou destaque por unir a busca por formação profissional a um propósito que ia além de sua própria carreira. Sua presença nas salas de aula da Faculdade de Medicina passou a representar uma mudança importante na realidade acadêmica e ajudou a colocar em evidência a necessidade de ampliar oportunidades de acesso à educação.
Em entrevista concedida ao g1 na época de seu ingresso, Thaiz revelou que havia escolhido a Medicina com um objetivo definido: tornar-se endocrinologista e trabalhar diretamente com pessoas trans que buscavam acompanhamento relacionado à hormonização. A escolha pela área demonstrava uma preocupação com a qualidade do atendimento e com a possibilidade de oferecer acolhimento especializado a uma população que, muitas vezes, encontra dificuldades para ter acesso a serviços de saúde preparados para suas necessidades. Para Thaiz, a formação acadêmica também poderia representar uma forma de transformar sua própria experiência em incentivo para outras pessoas. Sua decisão de seguir estudando carregava, portanto, um significado pessoal e coletivo.
Na mesma entrevista, Thaiz explicou que desejava que sua trajetória servisse de estímulo para outras pessoas trans retomarem ou iniciarem os estudos. A estudante defendia a educação como um dos principais caminhos para ampliar oportunidades e promover mudanças sociais. A declaração feita naquele momento ganhou novo significado após sua morte, especialmente entre aqueles que acompanharam sua passagem pela universidade. Ao ocupar um espaço até então pouco acessível para pessoas trans, Thaiz mostrou que a presença na universidade também pode contribuir para inspirar novas gerações a buscar formação profissional e construir seus próprios caminhos. Sua história passou a fazer parte da memória da instituição e de todos que conviveram com ela durante a graduação.
O diretório acadêmico da Faculdade de Medicina da UFBA também ressaltou o impacto deixado por Thaiz entre estudantes e integrantes da comunidade universitária. Em uma publicação de homenagem, a entidade destacou que ela inspirou colegas e ajudou a abrir caminhos para outras pessoas trans dentro da instituição. A mensagem publicada após a confirmação da morte definiu Thaiz como um símbolo de representatividade, resistência, coragem e inspiração para diferentes gerações. A homenagem reforça que sua trajetória não foi marcada apenas pela conquista de uma vaga no curso de Medicina, mas também pela capacidade de ocupar esse espaço e contribuir para que outras pessoas enxergassem novas possibilidades no ambiente universitário.
A morte de Thaiz Pedrosa encerra uma trajetória que ganhou significado especial dentro da UFBA e entre pessoas que defendem maior acesso à educação e à formação profissional. Aos 44 anos, ela deixa registrada uma história que começou com a chegada à universidade em 2019 e que passou a representar um marco na presença de pessoas trans no curso de Medicina. Seu projeto de se tornar endocrinologista e contribuir com o atendimento à população trans não chegou ao desfecho que ela imaginava, mas as ideias que defendia continuam presentes naqueles que foram inspirados por sua caminhada. A comunidade acadêmica agora presta homenagem à estudante que ajudou a ampliar a representatividade na instituição e cuja história permanece como referência para quem acredita que a educação pode abrir novos caminhos.


