Vorcaro pergunta a Moraes se deveria deixar o país antes de operação

Uma troca de mensagens atribuída a Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), trouxe novos elementos para o debate sobre os acontecimentos que antecederam a prisão do ex-dono do Banco Master. O conteúdo, revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo e obtido pela TV Globo, mostra que Vorcaro questionava Moraes sobre a possibilidade de deixar o país poucos dias antes de uma operação da Polícia Federal que o teve como alvo. Em uma das mensagens, enviada em 15 de novembro de 2025, um sábado, o banqueiro perguntou: “Acha que 2ª tenho que estar fora?”. Dois dias depois, na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto Internacional de São Paulo quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Malta, na Europa. A sequência das mensagens e dos acontecimentos passou a chamar atenção dentro das investigações que analisam o caso.
No dia seguinte à primeira mensagem, 16 de novembro, Vorcaro voltou a procurar o contato registrado em seu telefone como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Segundo o relatório elaborado pela Polícia Federal, ele questionou se havia possibilidade de a ação ocorrer naquela manhã de segunda-feira. Em outra comunicação enviada no mesmo dia, o ex-banqueiro sugeriu um encontro com o ministro e perguntou se seria na casa de Moraes ou na dele. Nas mensagens atribuídas a Vorcaro, também aparece uma demonstração de preocupação com os acontecimentos que poderiam afetar seus negócios. Ele afirmou estar perplexo e avaliou que a situação poderia comprometer a atividade empresarial. O conjunto dos registros, agora incorporado a um relatório encaminhado ao STF, passou a integrar o material que será analisado pelas autoridades responsáveis pelo caso.
A prisão de Vorcaro ocorreu no contexto de uma investigação relacionada à emissão de títulos de crédito considerados irregulares pelos investigadores. Na época, o Banco Master oferecia Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com promessa de remuneração que poderia chegar a 40% acima da taxa básica do mercado. Segundo as apurações realizadas naquele período, os retornos anunciados não corresponderiam à realidade financeira dos papéis. A operação da Polícia Federal buscava esclarecer a estrutura dessas operações e identificar eventuais responsabilidades. O fato de a prisão ter ocorrido apenas dois dias depois da primeira mensagem de Vorcaro a Moraes acrescentou um novo elemento cronológico ao caso e despertou questionamentos sobre o que o ex-banqueiro sabia ou esperava que acontecesse antes da ação policial.
Apesar da repercussão do conteúdo, o relatório da Polícia Federal apresenta uma importante ressalva sobre os diálogos. O documento recuperou apenas as mensagens enviadas por Vorcaro ao número que estava salvo em seu celular com a identificação atribuída a Moraes. Dessa forma, o material disponível não registra, nesse conjunto específico, as eventuais respostas dadas pelo ministro. As mensagens também foram enviadas em formato de visualização única pelo WhatsApp. De acordo com a investigação, Vorcaro teria escrito os textos no aplicativo Notas, feito capturas de tela e encaminhado as imagens pelo aplicativo de mensagens. A PF conseguiu recuperar o conteúdo ao cruzar diferentes informações digitais, incluindo os horários de utilização do aplicativo, as capturas de tela, arquivos temporários em PDF gerados pelos registros e os dados de envio armazenados pelo WhatsApp.
O relatório que reúne essas informações foi encaminhado pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal e teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça. O conteúdo também foi enviado para análise da Procuradoria-Geral da República (PGR). A divulgação das mensagens acrescenta informações à investigação e permite reconstruir, a partir dos registros recuperados, a movimentação de Vorcaro nas horas que antecederam a operação. No entanto, o material apresentado pela PF precisa ser interpretado dentro dos limites registrados no próprio documento, especialmente porque apenas o conteúdo enviado pelo banqueiro aparece nesse levantamento. A existência das mensagens, por si só, não estabelece uma conclusão sobre eventual conduta irregular de qualquer uma das pessoas citadas.
Com a retirada do sigilo, o conteúdo passa a integrar o conjunto de informações que poderá ser examinado pelas autoridades responsáveis pelos procedimentos relacionados ao caso. A sequência temporal é um dos pontos que mais chamam atenção: a primeira pergunta sobre a necessidade de estar fora do país ocorreu em 15 de novembro, houve novas mensagens no dia 16 e, na noite seguinte, a Polícia Federal prendeu Vorcaro quando ele tentava viajar para Malta. A partir de agora, o material poderá ser confrontado com outros elementos reunidos nas investigações, incluindo registros de comunicação e informações sobre a operação. As mensagens, portanto, acrescentam uma nova dimensão ao caso, mas as conclusões sobre o significado dos contatos dependerão da análise completa dos documentos e demais provas disponíveis às autoridades.



