Antes de morrer, Laura Cardoso abriu o coração e falou sobre o próprio fim

Laura Cardoso, uma das maiores expressões da dramaturgia brasileira, faleceu na noite de 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, em sua residência em São Paulo. A notícia foi comunicada pela família nas primeiras horas do dia seguinte, provocando profunda comoção em todo o país. Com uma trajetória que ultrapassou oito décadas, a atriz deixou um legado incomparável no rádio, no teatro, no cinema e, principalmente, na televisão, meio no qual se tornou referência absoluta de talento, disciplina e longevidade artística.
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni em 13 de setembro de 1927, ela iniciou a carreira ainda adolescente, aos 15 anos, nas radionovelas. A transição para a televisão ocorreu em 1952, na TV Tupi, e dali em diante construiu um currículo raro: mais de 60 novelas, além de trabalhos no teatro e no cinema. Personagens marcantes como a Cidinha de Mulheres de Areia, a Guiomar de A Viagem e a Matilde de A Dona do Pedaço, seu último trabalho em teledramaturgia, em 2019, ilustram a versatilidade e a força interpretativa que a tornaram presença constante nas telas brasileiras por gerações.
Nos últimos anos, afastada das novelas, Laura Cardoso manteve-se ligada à arte. Em 2025, estrelou o curta-metragem Dona Rosinha, no qual interpretou uma idosa abandonada, papel que enfrentou com a mesma entrega que sempre a caracterizou. Em entrevistas recentes, reiterava o desejo de continuar atuando. “A aposentadoria é uma coisa horrível. Se você ficar parada, você morre. Quero continuar na batalha”, declarou em determinada ocasião, revelando a vitalidade que a acompanhou até quase completar 99 anos.
A atriz também falou abertamente sobre a morte, tema que tratava com serenidade e lucidez. Em 2019, em conversa com a imprensa, afirmou não temer o fim da vida. “É uma besteira ter medo da morte. Ela é imprevisível, mas inevitável. A gente não sabe quando ela vem, mas que ela é certa para todo mundo, ela é. Só não diz a hora que vem. Amo a vida, agradeço a Deus por ter chegado a essa idade, mas a gente um dia vai embora.” A declaração, simples e direta, revelava uma mulher que encarava a finitude com naturalidade, sem drama ou negação.
Anos antes, em 2014, no programa Provocações, da TV Cultura, Laura Cardoso havia comentado de forma leve e bem-humorada como gostaria de partir. Questionada sobre a maneira preferida de morrer, respondeu sem hesitação: “Dormindo. Sabe aquela coisa: ‘Ah, morreu dormindo’. É santo. De Deus.” Quando o entrevistador indagou sobre a possibilidade de estar cercada de aparelhos médicos, a reação foi imediata e categórica: “Ah, não!” A resposta, marcada pelo humor característico da atriz, traduzia o desejo de uma despedida tranquila, sem sofrimento prolongado.
Essa postura diante da morte dialogava com a maneira como ela viveu a carreira e a vida. Laura Cardoso nunca se acomodou. Mesmo avançada em idade, mantinha o rigor profissional e o entusiasmo pelo ofício. Em depoimentos, dizia que o trabalho a preenchia e que parar significava deixar algo morrer por dentro. Sua dedicação transformou-a em uma das atrizes com maior número de títulos na história da televisão brasileira, símbolo de uma época em que a dramaturgia se consolidava como produto cultural de massa e, ao mesmo tempo, de qualidade artística.
O impacto de sua partida transcende o meio artístico. Laura Cardoso representou para milhões de espectadores a figura da matriarca forte, da mulher complexa e da intérprete capaz de humanizar qualquer personagem. Colegas de gerações distintas sempre destacaram sua generosidade em cena e fora dela, além da disciplina que a manteve ativa por tanto tempo. Seu velório, realizado em São Paulo no mesmo dia do anúncio da morte, reuniu familiares, amigos e admiradores em um momento de despedida contida e respeitosa.
A trajetória de Laura Cardoso permanece como exemplo de resiliência e paixão pela arte. Em uma carreira que acompanhou a própria história da televisão brasileira, ela transitou do rádio analógico às novelas contemporâneas sem perder a essência. Falou da morte com a mesma franqueza com que enfrentou os desafios da profissão, sempre privilegiando a vida e o trabalho. Sua ausência deixa um vazio, mas o conjunto da obra garante que a memória da grande atriz continue presente nas telas e no imaginário de quem a acompanhou ao longo de tantas décadas. Laura Cardoso partiu dormindo, como desejava, e deixa para a cultura brasileira um legado que, este sim, se revela verdadeiramente eterno.



