Por que o Brasil mistura etanol na gasolina?

Quem abastece um carro com gasolina no Brasil também coloca etanol no tanque, mesmo quando não escolhe diretamente o biocombustível na bomba. Essa característica do mercado brasileiro não é recente: a política de adicionar álcool à gasolina começou oficialmente em 1931 e atravessou diferentes momentos da história econômica do país, ganhando importância estratégica após as crises internacionais do petróleo na década de 1970.
Hoje, a mistura é parte estrutural da política energética brasileira. Desde 1º de agosto de 2026, a gasolina C comum e a comum aditivada comercializadas no país devem conter temporariamente 32% de etanol anidro, mistura conhecida como E32. A medida substituiu, por 180 dias, o percentual de 30% que vigorava desde agosto de 2025 e pode ser prorrogada uma vez pelo mesmo período. Na gasolina premium, o percentual permanece em 25%.
Mas por que o Brasil adotou esse modelo décadas antes de temas como transição energética e descarbonização entrarem no debate mundial?
Mistura de etanol na gasolina começou oficialmente em 1931
A origem está no governo de Getúlio Vargas. Em 20 de fevereiro de 1931, o Decreto nº 19.717 estabeleceu que os importadores de gasolina deveriam adquirir álcool de produção nacional em quantidade equivalente a pelo menos 5% da gasolina importada. O produto deveria ser utilizado na preparação do combustível comercializado no país.
A regra tinha forte componente econômico. Ao utilizar um combustível produzido internamente, o Brasil buscava reduzir parte da dependência da gasolina importada e, ao mesmo tempo, criar mercado para a produção nacional de álcool.
O decreto também permitia ao governo alterar o percentual conforme a disponibilidade de álcool no país. Além disso, determinava que veículos pertencentes ou a serviço do poder público utilizassem álcool ou combustíveis que contivessem o produto sempre que possível.
Portanto, a história da mistura obrigatória brasileira nasceu muito antes das atuais políticas ambientais.
Crise do petróleo mudou a importância do etanol
O ponto de virada ocorreu mais de quatro décadas depois. O primeiro choque do petróleo, em 1973, provocou forte elevação das cotações internacionais e atingiu especialmente países dependentes das importações do combustível.
Para o Brasil, a vulnerabilidade externa tornou a busca por alternativas energéticas uma questão econômica estratégica. Em 1975, o governo criou o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, voltado à expansão da produção e do consumo de etanol como substituto dos derivados de petróleo. A iniciativa tinha justamente entre suas principais motivações a redução da dependência brasileira do petróleo após a disparada internacional dos preços.
Inicialmente, um dos caminhos adotados foi ampliar o uso do etanol anidro misturado à gasolina. Posteriormente, o país avançou também no desenvolvimento e na comercialização de veículos capazes de funcionar diretamente com álcool combustível.
O etanol deixou, assim, de ser apenas uma alternativa para absorver produção agrícola e passou a integrar a estratégia brasileira de segurança energética.
Qual etanol é colocado na gasolina?
O etanol misturado obrigatoriamente à gasolina é o etanol anidro, diferente do etanol hidratado vendido separadamente nas bombas dos postos.
Na prática, a gasolina que sai da refinaria ou é importada sem etanol é chamada de gasolina A. Depois da adição obrigatória de etanol anidro pelas distribuidoras, o combustível passa a ser chamado de gasolina C, que é a versão normalmente encontrada pelo consumidor nos postos.
Essa política permite substituir uma parcela da gasolina de origem fóssil por um combustível renovável produzido no próprio país.
Carros flex deram novo impulso ao etanol
Outra transformação importante ocorreu em 2003, com a entrada dos automóveis flex fuel no mercado brasileiro. Essa tecnologia permitiu que os veículos funcionassem com gasolina, etanol hidratado ou diferentes proporções dos dois combustíveis, aumentando significativamente a capacidade de escolha do consumidor.
O avanço dos carros flex ajudou a reaquecer o setor de etanol e aprofundou uma característica singular do mercado brasileiro: o mesmo biocombustível pode chegar ao automóvel de duas maneiras — diretamente como etanol hidratado ou indiretamente como etanol anidro presente na gasolina.
Mistura chegou a 30% em 2025
Décadas depois da crise do petróleo, as justificativas para ampliar o uso do etanol passaram a incluir também a redução de emissões e a transição para combustíveis renováveis.
Em 2024, a Lei do Combustível do Futuro abriu caminho para elevar a participação do etanol anidro na gasolina comum. Depois de testes técnicos envolvendo veículos, motocicletas, emissões, partida a frio e outros parâmetros, o governo aprovou a mistura E30, com 30% de etanol, que entrou oficialmente em vigor em 1º de agosto de 2025.
Os estudos conduzidos antes da mudança apontaram viabilidade da mistura para a maior parte da frota brasileira, sem impactos relevantes nos veículos analisados. A legislação permite percentuais de etanol anidro na gasolina comum de até 35%, dentro das condições previstas em lei.
Em 2026, Brasil passou temporariamente ao E32
A trajetória avançou novamente em 2026. Desde 1º de agosto, a mistura obrigatória passou temporariamente de 30% para 32% de etanol anidro na gasolina C comum e comum aditivada em todo o território nacional.
Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a regra foi estabelecida pela Resolução CNPE nº 9/2026 em caráter excepcional e terá inicialmente duração de 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação pelo mesmo período.
A mudança demonstra como uma política iniciada com apenas 5% de álcool na década de 1930 se transformou em um dos pilares do sistema brasileiro de combustíveis.
Por que o Brasil continua misturando etanol à gasolina?
Ao longo de quase um século, as razões mudaram e se acumularam. Primeiro, a mistura ajudava a criar mercado para um produto nacional e reduzir o uso de gasolina importada. Depois das crises do petróleo, ganhou papel central na tentativa de diminuir a vulnerabilidade energética do país. Mais recentemente, passou também a fazer parte das políticas de redução da utilização de combustíveis fósseis e de descarbonização do transporte.
O resultado é um modelo que atravessou governos, crises econômicas e diferentes fases da indústria automobilística.
Assim, quando o motorista brasileiro abastece com gasolina, a presença do etanol não é apenas resultado de uma decisão recente sobre biocombustíveis. É consequência de uma política que começou oficialmente em 1931, ganhou escala após o choque internacional do petróleo nos anos 1970, foi fortalecida pelo Proálcool, recebeu novo impulso dos veículos flex a partir de 2003 e continua sendo atualizada quase um século depois.



