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Caso Ryan: PMs mataram criança de 4 anos em legítima defesa, diz Civil

O caso que envolve a morte do menino Ryan Silva Andrade Santos, de apenas 4 anos, voltou ao centro do debate público nesta semana após a conclusão do inquérito da Polícia Civil. O relatório final, entregue à Justiça na segunda-feira (2), afirma que os policiais militares envolvidos na ação atuavam em legítima defesa no momento dos disparos. A conclusão, no entanto, não encerra o assunto e segue provocando questionamentos, tanto no meio jurídico quanto na sociedade.

Ryan foi atingido na noite de 5 de novembro de 2024, no Morro São Bento, em Santos, litoral de São Paulo. Segundo a investigação, policiais da Força Tática e da Rocam estavam no local para apurar uma denúncia de tráfico de drogas. De acordo com os relatos oficiais, ao se aproximarem de um ponto conhecido pela venda de entorpecentes, os agentes teriam sido recebidos a tiros por um grupo de suspeitos, o que deu início a um confronto.

Durante essa ação, dois adolescentes que estavam em uma motocicleta foram baleados. Um deles, de 17 anos, morreu no local. O outro, de 15, sobreviveu e foi apreendido, confessando posteriormente envolvimento com o tráfico. A versão apresentada pelos policiais sustenta que ambos atiraram contra a equipe, justificando o revide. O adolescente que sobreviveu, porém, negou portar qualquer arma, versão que também é sustentada por moradores da região que afirmam não ter ouvido disparos vindos dos suspeitos.

Enquanto o confronto ocorria, Ryan brincava na rua com outras crianças, sob a supervisão de familiares. Um disparo atingiu o abdômen do menino, causando ferimentos graves. Ele foi levado às pressas para a Santa Casa de Santos, passou por cirurgia, mas não resistiu. O laudo do Instituto Médico Legal apontou que a causa da morte foi uma hemorragia interna decorrente de lesão no fígado provocada por projétil de arma de fogo.

Posteriormente, exames periciais indicaram que o projétil que atingiu Ryan partiu de uma arma calibre 12. Entre os policiais presentes na operação, apenas o cabo Clóvis Damasceno de Carvalho Júnior portava esse tipo de armamento. Ainda assim, em depoimento, ele e os demais agentes afirmaram ser improvável que o disparo tenha saído de uma arma policial, citando distância, relevo e ângulo como fatores que dificultariam essa possibilidade.

No relatório final, o delegado Thiago Nemi Bonametti destacou que perícias no local apontaram disparos de armas que não pertenciam à polícia. Ele também ressaltou que a área é conhecida pela atuação armada do tráfico e por episódios anteriores de violência, inclusive com registros de policiais feridos nos últimos anos. O documento menciona ainda a presença de inscrições ligadas a facções criminosas na região.

Sobre o disparo que atingiu Ryan, a Polícia Civil sustenta a hipótese de ricochete. Segundo o delegado, o projétil chegou à criança com energia reduzida e apresentava deformação, indicando que teria batido em outro ponto antes de atingi-la. Para a investigação, isso tornaria o resultado imprevisível para os policiais que atiravam em legítima defesa.

Apesar da conclusão do inquérito, o caso segue em análise. O Ministério Público de São Paulo instaurou um Procedimento Investigatório Criminal próprio, que tramita sob sigilo. Paralelamente, o processo que apura possível homicídio simples contra os policiais continua em andamento na Vara do Júri de Santos.

A morte de Ryan permanece como um episódio doloroso, que expõe a complexidade das ações policiais em áreas urbanas vulneráveis e reforça a necessidade de apuração cuidadosa, transparente e responsável por parte das instituições.

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