O alerta que Gerluce recebe ao denunciar Ferette em Três Graças

Gerluce saiu de casa com o coração apertado, sentindo que cada passo que dava em direção à delegacia era um desafio contra forças muito maiores do que ela. A piora repentina de Lígia parecia gritar em sua mente, lembrando-lhe de que o tempo estava esgotando. A mãe, antes forte e cheia de vida, agora mal conseguia respirar, e a culpa que recaiu sobre os remédios distribuídos pela Fundação Ferette transformou a angústia em revolta. A comunidade da Chacrinha inteira parecia adoecer junto, e Gerluce sabia que não havia mais espaço para hesitação. Era o momento de agir, mesmo que isso significasse enfrentar gente poderosa.
Ao chegar à delegacia, foi recebida por olhares indiferentes. Não houve gentileza, tampouco acolhimento. Ela entrou já dizendo a que vinha, tentando explicar a gravidade da situação e como os medicamentos falsificados estavam colocando vidas em risco. O delegado Fausto a conduziu para uma sala fechada, e a tensão naquele ambiente fez com que o ar parecesse mais pesado. A forma como ele a observava, com certa ironia que se escondia entre as palavras, deixou claro que aquele não seria um caminho simples.
Ela insistiu em relatar o esquema da Fundação Ferette, narrando o que havia testemunhado na Farmácia Social e as reações adversas que tantas pessoas vinham sofrendo. Falou das mortes silenciosas que se acumulavam, dos sintomas que não batiam com nenhum tratamento conhecido, e da piora de sua mãe. Mas, a cada argumento, Fausto respondia com desconfiança ou desprezo. Gerluce percebeu que, mais do que ignorância, havia ali um medo velado, quase palpável. Ele não queria conflito, muito menos mexer com um homem tão influente.
Quando o delegado ironizou o fato de ela entrar acusando um dos poderosos da cidade sem sequer dizer seu nome, Gerluce sentiu o sangue subir ao rosto. Ela não havia ido ali por imprudência; havia ido porque não tinha mais onde buscar ajuda. Observou Fausto tentar reduzir a gravidade do que ela dizia, exigindo provas imediatas, como se desconhecesse a dificuldade de obtê-las. Era evidente que ele buscava um motivo plausível para não se envolver.
A conversa mudou de tom quando Gerluce perguntou abertamente se ele tinha medo de Ferette. A reação do delegado foi instantânea: um olhar duro, uma postura defensiva, palavras afiadas que deixavam claro que o assunto era perigoso. Ele admitiu, ainda que indiretamente, que provocar Ferette poderia custar-lhe a carreira. Uma transferência para algum lugar esquecido, no fim do mundo, seria apenas o começo das consequências. Era como se a simples menção do nome do empresário carregasse uma ameaça silenciosa.
O alerta que Fausto fez ecoou pela sala como um golpe. Ele disse que, se estivesse envolvido com algum esquema, ela não sairia dali com tanta facilidade. Sugeriu que ela agradecesse por não estar lidando com alguém pior e afirmou que a própria vida dela poderia estar em risco. As palavras “podia aparecer morta” atingiram Gerluce como uma sentença fria. Não era somente um aviso; era uma demonstração do tamanho da sombra que Ferette lançava sobre todos.
Ela perguntou, quase em desespero, o que deveria fazer se nem a polícia estava disposta a ouvir. A resposta de Fausto foi tão cruel quanto direta: nada. Volte pra casa e se conforme. Aquilo foi como um empurrão para um abismo de impotência. Não havia justiça, não havia proteção, não havia caminho oficial para salvar sua mãe ou qualquer outra pessoa. O sistema parecia fechado, engessado pelo medo e pela influência de um único homem.
Gerluce saiu da delegacia sentindo as pernas tremerem, mas não por covardia. Era a revolta que pulsava, misturada com a dor e a urgência. Do lado de fora, o mundo continuava igual, com crianças brincando na rua e vendedores chamando clientes, mas para ela tudo parecia distante. As palavras de Fausto martelavam em sua cabeça, mas, em vez de recuar, deram-lhe uma clareza perigosa. Se não havia autoridade disposta a ajudar, ela precisaria encontrar outra forma de enfrentar o problema.
Ao reencontrar Viviane, desabou. Contou cada detalhe, cada insulto disfarçado, cada ameaça que pairou sobre sua cabeça. Viviane a ouviu com atenção e indignação, tentando confortá-la, mas Gerluce sabia que não precisava de consolo naquele momento. Precisava de coragem. A injustiça cometida contra sua mãe, contra tantas famílias, era maior do que qualquer medo que pudesse sentir. E, naquele instante, uma chama começou a acender dentro dela.
Gerluce entendeu que não poderia mais depender de instituições que se recusavam a proteger a própria população. A denúncia engavetada, o silêncio do delegado, a omissão generalizada — tudo aquilo empurrou a protagonista para um caminho incerto, mas necessário. Ela não sabia ainda como enfrentaria Ferette, nem até onde precisaria ir, mas dentro de si algo havia mudado. A partir dali, não seria mais uma mulher implorando por ajuda: seria alguém disposta a lutar até o fim.



