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“Três Graças”: entenda doença grave e rara que afeta Lígia

Na novela “Três Graças”, a nova produção das nove da TV Globo, a personagem Lígia, interpretada por Dira Paes, enfrenta uma dura batalha contra uma doença rara e grave: a hipertensão arterial pulmonar. A trama, escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, apresenta de forma sensível e dramática os impactos físicos e emocionais dessa condição na vida da personagem e de sua família. O enredo ganha intensidade quando sua filha, Gerluce, vivida por Sophie Charlotte, descobre que os medicamentos tomados pela mãe são falsificados, agravando o quadro clínico da matriarca e desencadeando uma sequência de acontecimentos marcados por sofrimento e descobertas.

A hipertensão arterial pulmonar é uma doença considerada rara, atingindo entre 40 e 55 pessoas a cada um milhão de adultos, conforme dados da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. O problema é caracterizado pelo aumento anormal da pressão nas artérias dos pulmões, o que sobrecarrega o coração e prejudica a circulação do sangue. Trata-se de uma condição progressiva que pode causar falta de ar, cansaço extremo e limitações severas nas atividades cotidianas, mesmo nas mais simples, como subir poucos degraus ou caminhar distâncias curtas.

O sistema circulatório humano funciona como um circuito contínuo e coordenado, composto por duas bombas principais localizadas no coração. A bomba do lado esquerdo é responsável por enviar o sangue rico em oxigênio para todo o corpo, sob alta pressão, garantindo que todos os órgãos recebam nutrientes e oxigênio suficientes. Já a bomba do lado direito tem a função de encaminhar o sangue para os pulmões, onde ocorre a troca gasosa. Esse processo, no entanto, é realizado em baixa pressão, uma vez que as artérias pulmonares são mais delicadas e não foram projetadas para suportar grandes forças.

Quando ocorre um aumento anormal dessa pressão nas artérias dos pulmões, a parte direita do coração é obrigada a trabalhar de maneira mais intensa, tentando vencer a resistência elevada. Com o tempo, esse esforço constante causa uma sobrecarga que pode levar à falência da bomba cardíaca direita. O pneumologista Caio Fernandes, do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP, explica que essa falência resulta em sintomas como falta de ar, fadiga e inchaço, principalmente nas pernas, sinais clássicos da hipertensão pulmonar em estágio avançado.

Os sintomas iniciais da doença costumam ser sutis e facilmente confundidos com outras condições respiratórias, o que dificulta o diagnóstico precoce. A falta de ar durante esforços físicos é o sintoma mais comum, mas também podem surgir tonturas, fraqueza e sensação de desmaio. À medida que a doença progride, os pacientes podem apresentar edemas, especialmente nas extremidades inferiores, devido à dificuldade de o coração bombear o sangue de forma eficiente. Essa evolução lenta e silenciosa faz com que muitos pacientes só procurem ajuda médica quando a doença já está em estado avançado.

O diagnóstico da hipertensão arterial pulmonar exige uma avaliação detalhada, com o uso de exames de imagem e testes de função pulmonar. Radiografias do tórax e ecocardiogramas ajudam a identificar o aumento das câmaras cardíacas e alterações nas artérias pulmonares. O eletrocardiograma também é útil para avaliar o ritmo do coração e os efeitos do esforço sobre o órgão. Em alguns casos, exames mais complexos, como o cateterismo cardíaco, podem ser necessários para medir diretamente a pressão nas artérias pulmonares e confirmar o diagnóstico.

O tratamento da hipertensão pulmonar depende da causa subjacente e do estágio da doença, mas geralmente envolve o uso de medicamentos que ajudam a dilatar os vasos sanguíneos e reduzir a pressão nas artérias pulmonares. Esses remédios melhoram a oxigenação do sangue e aliviam os sintomas, proporcionando uma melhor qualidade de vida. Em situações mais graves, o uso de oxigênio suplementar é necessário para manter níveis adequados de oxigênio no corpo e reduzir a sobrecarga do coração. Em casos extremos, o transplante pulmonar pode ser a única alternativa.

Na novela, a descoberta de que Lígia vinha tomando remédios falsos serve como uma crítica contundente à falsificação de medicamentos, um problema que afeta milhares de brasileiros e pode colocar vidas em risco. A falta de controle rigoroso e o acesso limitado a tratamentos adequados tornam ainda mais desafiador o enfrentamento de doenças raras no país. A situação de Lígia simboliza a luta de muitos pacientes que dependem de medicações caras e específicas para sobreviver, mas que se deparam com obstáculos no sistema de saúde e nas políticas públicas de acesso a medicamentos.

Além do aspecto médico, “Três Graças” traz à tona a dimensão emocional e familiar da convivência com uma doença crônica. A relação entre mãe e filha é testada por segredos, medo e esperança, refletindo o impacto que o diagnóstico de uma doença grave pode causar não apenas no paciente, mas em todos ao seu redor. Dira Paes interpreta Lígia com intensidade e delicadeza, retratando a vulnerabilidade e a força de uma mulher que luta para manter a dignidade diante da dor.

Com essa abordagem, a novela contribui para ampliar o conhecimento do público sobre a hipertensão arterial pulmonar, uma condição pouco conhecida, mas de extrema gravidade. Ao misturar ficção e realidade, “Três Graças” cumpre um papel social importante, alertando sobre a importância do diagnóstico precoce, do tratamento adequado e da fiscalização de medicamentos, além de humanizar o debate sobre as dificuldades enfrentadas por pessoas que convivem com doenças raras no Brasil.

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