Homem é condenado após amputar pé por indenização de R$ 1,5 milhão

Um servidor público da Bahia chocou o país ao planejar e executar uma das fraudes contra seguradoras mais inusitadas registradas no Judiciário brasileiro. Vanderley dos Santos Gomes, técnico administrativo de uma universidade federal, amputou o próprio pé direito com o objetivo de receber indenizações que somavam cerca de R$ 1,5 milhão em apólices de acidentes pessoais. O plano, que envolvia um suposto sequestro e agressão por criminosos, desmoronou após minuciosa investigação policial e pericial, revelando que a lesão fora autoinfligida de forma cirúrgica.
Entre junho e julho de 2019, Gomes contratou quatro seguros de vida e acidentes em um intervalo de poucas semanas, junto a diferentes companhias. Os valores das coberturas por invalidez permanente eram elevados, incompatíveis com sua renda declarada. Pouco tempo depois, em agosto do mesmo ano, ele compareceu a uma delegacia alegando ter sido vítima de um assalto em uma zona rural de São Gonçalo dos Campos, onde bandidos teriam usado um facão para decepar seu pé durante um sequestro relâmpago.
A vítima apresentou o membro amputado como prova do crime, buscando acionar imediatamente as apólices. O relato dramático ganhou contornos de tragédia pessoal, mas logo despertou suspeitas entre as seguradoras devido ao timing extremamente conveniente e à ausência de testemunhas ou vestígios consistentes no local indicado. Peritos médicos observaram que o corte era preciso e limpo, com características típicas de procedimento cirúrgico, e não de uma amputação traumática realizada com instrumento cortante grosseiro.
Investigações da Polícia Civil baiana e análises técnicas demonstraram contradições graves na versão apresentada. Laudos comprovaram que a amputação havia sido realizada em condições controladas, com técnica que exigia conhecimento ou auxílio médico. O volume de apólices contratadas em curto espaço de tempo configurou, para o Ministério Público, indício claro de dolo e premeditação, caracterizando o crime de estelionato majorado.
O Tribunal de Justiça da Bahia condenou Vanderley dos Santos Gomes pela prática de fraude. A pena inicial de dois anos de reclusão foi convertida em regime aberto, com prestação de serviços à comunidade e pagamento de prestação pecuniária. Recursos apresentados pela defesa, inclusive tentativa de subida ao Superior Tribunal de Justiça, foram rejeitados, tornando a condenação definitiva neste ano.
Sem receber qualquer indenização das seguradoras, o ex-servidor perdeu o pé e ainda enfrenta as consequências jurídicas e sociais do caso. O episódio expôs fragilidades nos mecanismos de subscrição de seguros de acidentes pessoais, especialmente quando há contratação múltipla em período suspeito, e serviu de alerta para as empresas do setor sobre a necessidade de cruzamento mais rigoroso de informações.
O caso de Vanderley Gomes permanece como exemplo emblemático da chamada “fraude inventiva” no Brasil, onde a tentativa de lucro fácil resultou em prejuízo irreversível para o autor. Autoridades e especialistas em segurança de seguros destacam que a combinação de inteligência artificial, análise comportamental e perícia médica tem se tornado essencial para coibir esquemas semelhantes, protegendo o sistema como um todo e os consumidores honestos.



