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Adolescentes do caso Orelha continuam sendo ameaçados por facção

Mesmo após a inocentação oficial de jovens investigados no caso da morte do cão comunitário Orelha, as famílias seguem vivendo sob tensão constante. Longe de trazer alívio, o encerramento da apuração para parte dos envolvidos acabou abrindo espaço para uma nova etapa do drama: uma onda persistente de ameaças virtuais, ataques pessoais e intimidações que continuam se multiplicando nas redes sociais e em aplicativos de mensagens, mesmo sem qualquer respaldo legal.

O pai de um dos adolescentes inocentados relatou que a família passou a ser alvo de mensagens explícitas de ódio e violência. Segundo ele, as ameaças assumiram uma forma ainda mais perturbadora: o uso de transferências bancárias simbólicas via Pix para enviar recados intimidatórios. “As pessoas fazem Pix de um centavo para ficar mandando mensagem, ‘vou te matar’, ‘sua família acabou’, ‘a gente vai pegar vocês’”, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo. O método, além de cruel, dificulta o bloqueio imediato e amplia a sensação de vigilância constante.

A mãe de outro jovem inocentado também descreveu um cotidiano marcado pelo medo. De acordo com ela, os ataques são diários e chegam a dezenas. A família recebe, em média, cerca de 30 mensagens de ameaça por dia, vindas de perfis anônimos ou desconhecidos. O clima é de insegurança permanente, com receio de que o ódio virtual transborde para ações no mundo real. Para essas famílias, a exposição pública gerou um dano que a correção judicial não conseguiu reparar.

O caso ganhou repercussão nacional após denúncias de agressões contra o cão Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis (SC). As investigações indicaram que os maus-tratos teriam ocorrido na madrugada de 4 de janeiro e durado cerca de 35 minutos. Inicialmente, quatro jovens chegaram a ser apontados como suspeitos, o que alimentou uma rápida reação popular nas redes sociais, antes mesmo da consolidação das provas.

Com o avanço das apurações, a Polícia Civil de Santa Catarina inocentou três dos jovens, mantendo apenas um adolescente como investigado. No entanto, para as famílias excluídas da investigação, o estrago já estava feito. Imagens dos adolescentes circularam amplamente na internet, acompanhadas de julgamentos sumários e acusações diretas, sem espaço para o contraditório ou para a presunção de inocência.

Além da exposição de fotos, dados pessoais extremamente sensíveis foram divulgados de forma ilegal, como números de documentos, endereços, contas bancárias e placas de veículos. Essa prática elevou o risco de violência física e perseguição, transformando adolescentes e seus familiares em alvos fáceis de ataques coordenados por desconhecidos, movidos mais por indignação emocional do que por fatos comprovados.

O pai de um dos jovens resumiu o sentimento de impotência diante do tribunal virtual criado nas redes. “Mesmo com todas as notícias no sentido contrário de qualquer culpa em relação a ele, a internet comprou uma versão que adotou como verdade e parece que, nem se os anjos descerem na Terra para falar que não foi ele, ela vai aceitar”, declarou. O caso do cão Orelha escancara como acusações iniciais, somadas à exposição irresponsável, podem destruir reputações e colocar vidas em risco — mesmo depois que a Justiça aponta quem não tem culpa.

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