Testemunhas detalham prática apontada como ritual de mortes

A investigação sobre as mortes ocorridas na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga, ganhou novos contornos após a Polícia Civil do Distrito Federal ouvir pelo menos seis novas testemunhas que conviviam diretamente com os técnicos de enfermagem presos por suspeita de homicídio. Os depoimentos, obtidos com exclusividade, reforçam a hipótese de que as mortes não foram fatos isolados ou ocasionais, mas parte de um padrão repetido, descrito por investigadores como um verdadeiro “ritual” dentro da unidade de terapia intensiva.
Entre os ouvidos estão profissionais de saúde e funcionários do hospital que trabalhavam nos mesmos plantões dos investigados. Segundo fontes ligadas à apuração, os relatos indicam comportamentos considerados fora do normal na rotina hospitalar, especialmente durante a madrugada. As testemunhas relataram a presença recorrente de um dos técnicos próximo a determinados leitos pouco antes de pacientes sofrerem paradas cardiorrespiratórias, além de conversas reservadas, movimentações incomuns e uma postura fria após os óbitos.
Os depoimentos ajudaram a polícia a consolidar a tese de que havia divisão de papéis entre os suspeitos. De acordo com a investigação, Marcos Vinícius Silva Barbosa, apontado como o mentor do esquema, teria sido o responsável direto pela aplicação das substâncias. Já Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva, em alguns episódios, teriam acompanhado as ações ou permanecido nas proximidades sem intervir, o que, para os investigadores, caracteriza participação consciente.
Imagens captadas por câmeras internas do hospital reforçam as suspeitas. Os vídeos mostram os técnicos manipulando seringas e frascos e se aproximando de pacientes momentos antes das mortes. A sequência de ações, aliada aos depoimentos e aos laudos preliminares, sustenta a hipótese de que substâncias não prescritas foram injetadas deliberadamente nas vítimas. Em ao menos um dos casos, a polícia trabalha com a possibilidade de que um produto incompatível com uso intravenoso, possivelmente um desinfetante, tenha sido aplicado diretamente na veia, provocando um colapso quase imediato.
Até agora, três mortes são oficialmente atribuídas ao grupo. Elas ocorreram nos dias 17 de novembro e 1º de dezembro de 2025. As vítimas foram identificadas como João Clemente Pereira, de 63 anos, Marcos Moreira, de 33, e Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos. Todas estavam internadas na UTI e eram consideradas pacientes vulneráveis, o que reforça a linha de investigação adotada pela PCDF.
Embora o foco atual esteja restrito ao Hospital Anchieta, a polícia já começou a mapear períodos anteriores de atuação dos investigados em outras unidades de saúde do Distrito Federal. O objetivo é verificar se houve mortes suspeitas com características semelhantes, o que pode ampliar significativamente o alcance do inquérito.
Durante os interrogatórios, os técnicos inicialmente negaram qualquer irregularidade e afirmaram que apenas cumpriam prescrições médicas. No entanto, ao serem confrontados com vídeos, depoimentos e análises técnicas, passaram a apresentar versões contraditórias. Investigadores descrevem a postura do trio como fria, técnica e sem demonstração de arrependimento.
Celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos apreendidos seguem sob perícia. A polícia busca mensagens, pesquisas e registros que indiquem motivação, planejamento ou troca de informações entre os suspeitos. A chamada Operação Anúbis, que resultou nas prisões, continua em andamento, e a expectativa é de que o inquérito seja concluído nas próximas semanas.
As defesas sustentam a inocência dos investigados e afirmam que o caso ainda está em fase inicial de apuração. O Hospital Anchieta declarou que foi o responsável por acionar as autoridades ao identificar irregularidades e garante colaboração total com as investigações.



