Morre Frei Sérgio, referência na luta camponesa e nas causas populares

Morreu nesta terça-feira (3), no Rio Grande do Sul, Frei Sérgio Görgen, uma das figuras mais emblemáticas da luta camponesa no Brasil. Frade franciscano, dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e referência nacional na defesa da soberania alimentar e da dignidade no campo, ele tinha 70 anos e faleceu em decorrência de um infarto. Frei Sérgio havia completado aniversário no último dia 29, deixando um legado construído ao longo de décadas de militância social, espiritualidade ativa e compromisso com as causas populares.
Reconhecido como um articulador incansável entre fé e ação social, Frei Sérgio foi descrito pelo MPA como mais do que um dirigente: um pastor que escolheu estar ao lado do povo simples, vivendo de perto os desafios enfrentados por agricultores familiares em todo o país. Em nota, o movimento destacou que sua trajetória permanece viva “em cada semente crioula plantada” e em cada iniciativa voltada à valorização do campo, da produção de alimentos e da organização popular.
Além da atuação direta nas lutas sociais, Frei Sérgio também teve papel central na construção da comunicação popular. Em 2018, esteve à frente da fundação do Brasil de Fato no Rio Grande do Sul, contribuindo para fortalecer um projeto editorial comprometido com a democracia e com as vozes historicamente invisibilizadas. Para a jornalista Kátia Marko, editora-chefe da redação no estado, Frei Sérgio era um comunicador nato, com habilidade rara de dialogar com diferentes públicos e traduzir a complexidade da realidade em linguagem acessível.
Companheiros de caminhada também prestaram homenagens. João Pedro Stedile, liderança histórica dos movimentos do campo, lembrou a longa parceria construída ao longo de cerca de 40 anos. Em mensagem publicada nas redes sociais, destacou as batalhas enfrentadas juntos e o legado deixado para toda a militância camponesa brasileira, ressaltando que Frei Sérgio sempre acreditou na força do povo organizado.
Natural do Rio Grande do Sul, Frei Sérgio dedicou grande parte de sua vida à organização social e religiosa das populações rurais. Em 1996, participou da fundação do MPA, em um contexto marcado por secas recorrentes e pela necessidade de políticas públicas voltadas à agricultura familiar. Desde então, tornou-se uma das principais vozes na defesa de crédito agrícola, produção sustentável e justiça social no campo.
Ao longo de sua trajetória, participou de diferentes mobilizações nacionais, recorrendo inclusive a atos simbólicos de protesto em defesa de direitos sociais, da democracia e de políticas públicas para os trabalhadores rurais. Também registrou em livros e textos episódios marcantes da história recente do país, contribuindo para preservar a memória das lutas sociais no meio rural.
Em entrevistas, Frei Sérgio costumava afirmar que a fé não se limita aos espaços religiosos, mas se concretiza na vida cotidiana e no compromisso com a transformação social. Para ele, espiritualidade e ação caminham juntas, especialmente quando se trata de defender os mais vulneráveis. Sua morte encerra um ciclo importante da luta camponesa brasileira, mas seu exemplo segue inspirando movimentos, comunicadores e comunidades em todo o país.



