Mistério de décadas: polícia reabre caso de bebê dado como morto em 1970

Um casal de idosos de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital goiana, vive há mais de meio século com uma ferida aberta no coração: o desaparecimento de uma filha que, segundo o hospital, teria morrido poucas horas após o nascimento, em 1970. O caso, que por décadas foi tratado como uma tragédia sem respostas, agora ganha novos contornos e voltou a ser investigado pela Polícia Civil de Goiás.
A mãe, hoje com 85 anos, afirma que deu à luz normalmente em uma maternidade da capital. Pouco depois do parto, porém, a recém-nascida foi retirada do quarto por profissionais da unidade de saúde. A família relata que, horas depois, recebeu a informação de que a criança havia morrido. O detalhe que sempre gerou estranheza: o corpo nunca foi entregue, nem houve velório ou sepultamento acompanhados pelos pais.
Na época, o hospital teria alegado que os registros médicos do nascimento e do suposto óbito foram perdidos após um incêndio. Sem documentação, sem corpo e sem explicações claras, o casal foi obrigado a conviver com a dúvida mais cruel possível: a filha realmente morreu ou foi levada? O sentimento de injustiça acompanhou a família por décadas, atravessando gerações.
A história ganhou um novo capítulo recentemente, quando o casal tomou conhecimento da existência de uma mulher com idade compatível com a da criança desaparecida. Criada por um fazendeiro, ela nunca teve informações claras sobre sua origem biológica. O encontro, ainda informal, chamou atenção pela semelhança física e por coincidências de datas e locais, reacendendo a esperança dos pais.
Diante dessa possibilidade, a família procurou a Polícia Civil, que abriu procedimento para apurar o caso. Os investigadores analisam documentos antigos, relatos de testemunhas e informações disponíveis sobre a maternidade onde ocorreu o parto. Apesar do tempo decorrido, a polícia avalia que ainda é possível esclarecer os fatos, especialmente com o uso de exames de DNA.
Segundo fontes ligadas à investigação, situações semelhantes não eram incomuns nas décadas passadas, quando controles hospitalares eram mais frágeis e práticas ilegais, como adoções irregulares, raramente vinham à tona. Especialistas ouvidos no caso destacam que a ausência do corpo e da certidão de óbito válida são elementos que reforçam a necessidade de aprofundar as investigações.
O impacto emocional é visível. Amigos e familiares relatam que o casal nunca deixou de falar da filha. Mesmo sem uma fotografia ou documento oficial, a criança sempre esteve presente na memória da família. Para os idosos, a possibilidade de encontrá-la viva, mesmo após tantos anos, representa não apenas um reencontro, mas a chance de finalmente encerrar um luto que nunca pôde ser vivido.
A Polícia Civil informou que as apurações seguem em sigilo e que todas as partes envolvidas estão sendo ouvidas. Caso seja confirmada a identidade da mulher como filha biológica do casal, o caso pode ter desdobramentos jurídicos e históricos, além de lançar luz sobre possíveis irregularidades cometidas no passado.
Enquanto aguardam os próximos passos da investigação, os pais mantêm a esperança. Depois de mais de 50 anos de silêncio, a verdade pode estar mais próxima do que nunca. Para eles, não se trata apenas de um desfecho policial, mas de um capítulo de vida que, enfim, pode ser reescrito — desta vez, com respostas.



