Aos 89 anos, morre querida atriz de teatro

O mundo da moda, do teatro e das artes cênicas brasileiras sofreu uma perda irreparável com o falecimento de Vera Barreto Leite Valdez, ocorrido em 14 de janeiro de 2026, em São Paulo, aos 89 anos. Conhecida artisticamente como Vera Valdez, ela foi a primeira supermodelo brasileira a alcançar projeção internacional, pavimentando o caminho para que outras profissionais do país conquistassem espaço nas passarelas e editoriais do mundo. Sua trajetória representou não apenas um marco na história da moda nacional, mas também um símbolo de ousadia e determinação em uma época de restrições sociais e culturais.
Nascida no Rio de Janeiro em 26 de maio de 1936, Vera cresceu em um ambiente familiar marcado pela diplomacia e pelo contato com diferentes culturas, o que moldou sua visão cosmopolita desde cedo. Filha de um embaixador, ela teve acesso a experiências internacionais que poucas jovens brasileiras da sua geração podiam sonhar. Ainda adolescente, decidiu romper com as expectativas tradicionais impostas às mulheres de sua classe social e abraçou a carreira de modelo, uma escolha considerada revolucionária e até escandalosa na conservadora sociedade brasileira dos anos 1950.
Ao mudar-se para Paris no início daquela década, Vera Valdez rapidamente se inseriu no exigente circuito da alta-costura francesa. Com sua beleza exótica, elegância natural e presença magnética, desfilou para os maiores nomes da moda mundial, incluindo Christian Dior, Coco Chanel, Pierre Balmain e Elsa Schiaparelli. Tornou-se uma das musas preferidas dos fotógrafos e estilistas europeus, aparecendo em capas de revistas prestigiosas e sendo reconhecida como a primeira brasileira a atingir o status de top model global, em um tempo em que o mercado era dominado quase exclusivamente por europeias e americanas.
De volta ao Brasil anos depois, Vera não se limitou ao universo da moda e expandiu sua expressão artística para o teatro e o cinema, áreas em que encontrou maior profundidade criativa. Sua ligação com o Teatro Oficina, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, foi profunda e duradoura, participando de encenações ousadas e inovadoras que desafiavam as convenções estéticas e políticas da época. O grupo teatral, conhecido por sua abordagem antropofágica e contestadora, encontrou em Vera uma parceira ideal, cuja energia transgressora e compromisso com a arte transformaram diversas montagens em eventos históricos da cena cultural brasileira.
Além de atuar, Vera Valdez também se destacou como figurinista, trazendo para os palcos a sofisticação e o refinamento que absorvera nas casas de couture parisienses. Sua contribuição ia além da interpretação: ela ajudava a construir visualmente os espetáculos, misturando elementos da moda internacional com a identidade brasileira. No cinema, participou de filmes marcantes como “O Homem Nu”, de 1968, dirigido por Roberto Santos, onde sua presença carismática e despojada reforçou sua imagem de artista versátil, capaz de transitar com facilidade entre diferentes linguagens artísticas.
Autodefinida como libertária, boêmia e intelectual, Vera Valdez viveu uma existência intensa e sem amarras, rejeitando padrões impostos pela sociedade e defendendo sempre a liberdade individual e criativa. Sua personalidade forte, marcada por uma inteligência aguçada e um senso de humor irreverente, cativava colegas e admiradores, influenciando profundamente toda uma geração de artistas que a viam como exemplo de autenticidade e coragem em tempos de censura e repressão.
O Teatro Oficina, que foi sua casa artística por décadas, manifestou publicamente sua dor com a partida da companheira de tantas batalhas criativas, anunciando o falecimento e organizando o velório em sua sede histórica no Bixiga, em São Paulo. A ausência de Vera Valdez deixa um vazio imenso na cultura brasileira, mas seu legado como pioneira da moda nacional, atriz engajada e figura emblemática da contracultura permanece vivo, servindo de inspiração eterna para novas gerações de artistas que buscam ousadia, independência e excelência em suas trajetórias.



