Crianças que estão desaparecidas passaram a noite em cabana abandonada

Em Bacabal, no interior do Maranhão, um caso que chocou a região continua a mobilizar centenas de pessoas quase duas semanas após o desaparecimento de três crianças no quilombo São Sebastião dos Pretos. Anderson Kauã, de 8 anos, Ágatha Isabelle, com cerca de 5 anos, e Allan Michael, de apenas 4 anos, sumiram na tarde do dia 4 de janeiro enquanto brincavam em uma área próxima às residências simples da comunidade quilombola. O que começou como uma brincadeira inocente transformou-se em um drama que expõe as dificuldades de buscas em áreas de mata densa e a angústia de famílias que vivem em condições vulneráveis.
As crianças foram vistas pela última vez por volta do fim da tarde, quando se afastaram das casas de madeira e palha típicas do quilombo para explorar os arredores. Moradores e parentes perceberam a ausência apenas horas depois e imediatamente organizaram grupos para vasculhar a vegetação cerrada que cerca a comunidade. A região, marcada por rios, riachos e uma floresta espessa, tornou os primeiros esforços quase impossíveis sem equipamentos adequados, o que aumentou a desesperança inicial entre os familiares.
Somente no dia 7 de janeiro, após exaustivas 72 horas de buscas ininterruptas, Anderson Kauã foi localizado por uma equipe de resgate em meio à mata, visivelmente exausto, desidratado e com sinais de hipotermia leve. O menino, o mais velho dos três, foi levado imediatamente para um hospital da região, onde recebeu atendimento médico e, posteriormente, prestou depoimento às autoridades policiais. Seu relato trouxe as primeiras pistas concretas sobre o que pode ter acontecido com o grupo.
Segundo o depoimento de Anderson, os três irmãos se perderam juntos ao se aventurarem mais fundo na mata do que o habitual. Durante a noite, enfrentando chuva forte e temperaturas baixas típicas da estação, eles encontraram uma cabana abandonada — uma estrutura precária provavelmente usada por caçadores ou trabalhadores rurais no passado — e decidiram se abrigar ali. Passaram pelo menos uma noite inteira no local improvisado, tentando se proteger do tempo ruim e da escuridão que toma conta rapidamente da região.
O menino contou que, ao amanhecer ou em um momento de desespero, resolveu sair sozinho em busca de ajuda, acreditando que poderia encontrar o caminho de volta à comunidade. Ele deixou Ágatha e Allan Michael na cabana, orientando-os a permanecerem ali até seu retorno. No entanto, a chuva intensa o desorientou completamente, fazendo com que Anderson vagasse por horas até ser encontrado. Desde então, ele tem sido acompanhado por psicólogos e permanece sob os cuidados da família, ainda abalado pela experiência.
As buscas por Ágatha Isabelle e Allan Michael entraram no 12º dia consecutivo, com operações ampliadas que envolvem policiais civis e militares, bombeiros especializados em resgate em mata, cães farejadores treinados e até drones para sobrevoar áreas de difícil acesso. As equipes agora concentram os esforços na localização da cabana descrita por Anderson, que foi identificada em uma área mais remota do quilombo. Voluntários da comunidade local, parentes e moradores de cidades vizinhas também se juntam diariamente às varreduras, demonstrando uma solidariedade que tem sido destaque na região.
Apesar das novas informações trazidas pelo sobrevivente, nenhuma pista definitiva sobre o paradeiro das duas crianças menores foi descoberta até o momento, o que mantém as autoridades em alerta máximo e a investigação em andamento. A Polícia Civil do Maranhão trata o caso com prioridade absoluta, descartando por enquanto hipóteses de sequestro, mas sem descartar nenhuma linha de apuração. A comunidade de Bacabal vive dias de tensão e esperança, com vigílias, orações coletivas e apelos constantes nas redes sociais por qualquer informação que possa ajudar a encerrar esse capítulo doloroso que já dura quase duas semanas.



