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Padre morre em MG após rezar Ave-Maria

Poucos momentos conseguem reunir silêncio, emoção e significado de forma tão intensa quanto aquele vivido na última sexta-feira, em Juiz de Fora (MG). Faltava cerca de um minuto para as 18h quando o padre José Luciano Jacques Penido concluiu a oração de uma Ave-Maria. Logo após, serenamente, despediu-se da vida. Tinha 103 anos. A cena, relatada por pessoas próximas, espalhou-se rapidamente e tocou fiéis, religiosos e até quem não acompanhava de perto sua trajetória.

A confirmação da morte veio por meio da Congregação do Santíssimo Redentor, durante as homenagens póstumas realizadas no domingo (11), na Capela Mortuária do Cemitério da Paróquia da Glória. Não foi apenas a longevidade que chamou atenção, mas a forma como tudo aconteceu. Para muitos, parecia um encerramento simbólico de uma existência guiada pela fé do início ao fim.

Padre Penido nasceu em 18 de outubro de 1922, em Belo Vale, interior de Minas Gerais. Era um dos 13 irmãos de uma família simples, marcada pelo trabalho, pela religiosidade e pelo convívio comunitário. Ainda menino, demonstrou interesse pela vida religiosa, influenciado pelo contato frequente com missionários redentoristas que atuavam na região. Aos 11 anos, ingressou no seminário, dando início a um caminho que duraria mais de sete décadas.

Ordenado sacerdote em 1947, em Belo Horizonte, construiu uma trajetória ampla e diversa. Atuou como pároco, missionário, professor, formador de novos religiosos e gestor pastoral. Passou por cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, sempre conhecido pelo jeito tranquilo, pela escuta atenta e pela disciplina quase silenciosa. Em períodos de mudanças internas na Igreja, esteve à frente da antiga Província do Rio de Janeiro da Congregação Redentorista, ajudando a conduzir processos delicados com equilíbrio e diálogo.

Sua atuação ultrapassou fronteiras. Em Roma, aprofundou estudos em teologia e jornalismo e colaborou com a Rádio Vaticana, numa época em que a comunicação começava a ganhar novo papel dentro da Igreja. Mesmo longe do Brasil, mantinha forte vínculo com suas origens e com as causas que considerava essenciais.

Uma dessas causas foi a preservação da memória histórica. Padre Penido fundou o Museu do Escravo, em Belo Vale, considerado único no país. O espaço reúne documentos, objetos e registros que ajudam a compreender a história da escravidão, da resistência negra e da luta dos povos africanos escravizados no Brasil. Para ele, fé e consciência histórica caminhavam juntas, sem separações artificiais.

Em 2022, ao completar 100 anos, recebeu uma bênção apostólica do Papa Francisco e uma carta do Superior Geral dos Redentoristas, reconhecendo sua vida inteiramente dedicada ao serviço. O gesto simbolizou algo que muitos já sabiam: sua trajetória deixava marcas profundas, ainda que discretas.

O sepultamento ocorreu exatamente ao meio-dia, na Hora do Angelus, sob o toque dos sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória e cânticos tradicionais. Um detalhe que, para quem acompanhou sua história, pareceu mais que coincidência. Foi, para muitos, a despedida de um homem que viveu com simplicidade, constância e fé até o último instante.

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