Padre é condenado por crime contra mais de 60 vítimas

A prisão e condenação de Bernadino Batista dos Santos, ex-padre de 78 anos, marcaram um capítulo duro e simbólico na história recente da Justiça em Minas Gerais. A sentença, que determinou 24 anos e nove meses de prisão em regime fechado, encerra um processo longo, complexo e doloroso, que atravessou décadas e envolveu mais de 60 vítimas. Não é apenas um caso criminal; é também um retrato de falhas institucionais, silêncios prolongados e da persistência de quem decidiu falar.
Bernadino atuou como pároco por muitos anos e só foi oficialmente afastado de suas funções em 2021, após a arquidiocese de Belo Horizonte receber dezenas de denúncias. Até então, sua imagem pública ainda estava associada ao exercício religioso, algo que, segundo investigadores, facilitava o acesso às vítimas e a confiança das famílias. Os relatos apontam que os episódios de abusos ocorreram principalmente em um sítio localizado no município de Tiros, na região do Alto Parnaíba, um espaço que, à primeira vista, parecia inofensivo.
As idades das vítimas variavam entre 3 e 11 anos, o que reforça a gravidade do caso e o enquadramento do crime como estupr0 de vulnerável. As investigações indicam que os fatos teriam começado ainda em 1975, atravessando gerações. O último episódio identificado pela Polícia Civil teria ocorrido em 2016, durante uma festa de casamento realizada no mesmo sítio. A denúncia formal desse caso específico só veio à tona em agosto de 2025, mostrando como o tempo, o medo e a vergonha podem atrasar a busca por justiça.
Em outubro de 2024, Bernadino chegou a ser preso preventivamente, após o avanço das investigações. A detenção, no entanto, durou pouco. Em 28 de novembro daquele ano, ele foi solto e passou a responder ao processo em liberdade, com uso de tornozeleira eletrônica. À época, a decisão judicial considerou fatores como comorbidades, a idade avançada do réu e o longo intervalo entre os fatos denunciados e o julgamento.
A condenação definitiva, agora, muda esse cenário. Além da pena de prisão, a Justiça determinou o pagamento de R$ 30 mil por danos morais, valor que, embora simbólico diante da extensão do sofrimento relatado, representa um reconhecimento oficial das violações cometidas. A informação foi divulgada pela CNN e repercutiu amplamente em portais e redes sociais, reacendendo debates sobre a responsabilização de figuras religiosas e a proteção de crianças e adolescentes.
Casos como esse surgem em um contexto mais amplo de revisão de práticas e cobranças por transparência, algo que vem sendo discutido não apenas no Brasil, mas em vários países. Nos últimos anos, instituições religiosas passaram a ser pressionadas a rever protocolos internos, acolher denúncias e colaborar com autoridades civis, ainda que o caminho seja lento e cercado de resistências.
O Portal iG informou que tentou contato com a defesa de Bernadino Batista dos Santos, mas não obteve resposta até a última atualização da matéria. O espaço permanece aberto para manifestações. Enquanto isso, a decisão da Justiça mineira reforça uma mensagem clara: mesmo quando o tempo passa, os fatos não desaparecem, e a responsabilização pode, sim, acontecer.



