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Morre Marcelo VIP, aos 49 anos, o maior golpista do Brasil

A morte de Marcelo Nascimento da Rocha, mais conhecido como Marcelo VIP, encerrou ontem um dos capítulos mais curiosos — e até cinematográficos — da crônica policial brasileira. Ele tinha 49 anos e estava em Curitiba, onde enfrentava complicações derivadas de uma cirrose hepática. A confirmação veio através do advogado e amigo de longa data, Nilton Ribeiro, que publicou uma despedida emocionada nas redes sociais. “Um cliente que se tornou um grande amigo”, escreveu. A autora Mariana Caltabiano, que transformou a trajetória de Marcelo em livro, também confirmou que acompanhou seus últimos dias.

Natural do Paraná, Marcelo VIP cresceu à sombra de histórias improváveis e de uma criatividade que, para o bem ou para o mal, o projetou nacionalmente. Ele se tornou famoso pelos personagens que assumiu ao longo de anos, passando por músico, atleta e até empresário de renome. O velório está agendado para a tarde desta quarta-feira, em São José dos Pinhais (PR), reunindo familiares e pessoas que acompanharam sua jornada.

Entre os muitos episódios que marcaram sua fama, o mais lembrado é o de outubro de 2001, quando Marcelo decidiu se apresentar como Henrique Constantino, filho de Nenê Constantino, fundador da companhia aérea Gol. A ocasião era o Recifolia, evento conhecido por atrair turistas de todo o país. Vestido como alguém que, de fato, parecia ter influência, Marcelo circulou entre camarotes, concedeu entrevista ao apresentador Amaury Jr. e até sobrevoou a cidade de helicóptero.

Numa das falas mais comentadas daquele período, ele disse que o segredo da empresa aérea era comprar aeronaves, e não recorrer a leasing — comentário que chegou a repercutir como se tivesse vindo de um executivo real. O golpe rendeu manchetes, fez Marcelo aparecer ao lado de artistas conhecidos e o colocou definitivamente no imaginário popular.

O impacto de suas ações inspirou obras que alcançaram destaque. O livro “VIPs: histórias reais de um mentiroso”, escrito por Mariana Caltabiano, mergulha profundamente no universo criado por Marcelo e foi baseado em entrevistas concedidas por ele enquanto estava preso. Anos depois, a trama deu origem ao filme “VIPs”, estrelado por Wagner Moura, que apresentou ao grande público uma versão cinematográfica das histórias de Marcelo — com direito a críticas positivas e participação em festivais.

Por trás do personagem vivido tantas vezes com desenvoltura, existia um histórico extenso no sistema judicial. As ações de Marcelo resultaram em condenações que somaram mais de 34 anos, envolvendo estelionato, falsidade ideológica, roubo de aeronave e associação ao tráfico. Ele passou longos períodos detido, concedeu entrevistas, refletiu sobre seus erros e, em vários momentos, afirmou que queria reconstruir a própria vida fora dos holofotes.

Nos últimos anos, Marcelo alternou períodos de reclusão, tentativas de recomeço e aparições discretas. Pessoas próximas relatam que ele havia adotado uma postura mais reservada, distante da figura expansiva que o país conheceu no início dos anos 2000.

Sua morte fecha o ciclo de um personagem complexo — alguém que, ao mesmo tempo, despertava curiosidade e debate. Para muitos, Marcelo VIP foi um símbolo das contradições de um Brasil onde histórias improváveis encontram palco. Para outros, um alerta sobre os limites entre ficção e realidade.

O fato é que sua trajetória deixa um legado difícil de categorizar: parte crônica policial, parte retrato social e, em grande medida, uma narrativa que, ainda hoje, parece saída diretamente de um roteiro de cinema.

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