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Jards Macalé morre aos 82 anos no Rio de Janeiro

A música brasileira perdeu nesta segunda-feira, 17 de novembro de 2025, um de seus nomes mais inquietos e indispensáveis. Jards Macalé morreu aos 82 anos no Rio de Janeiro, deixando um vazio que nem suas guitarras mais distorcidas conseguiriam preencher. Ele partiu após complicações pulmonares que já o vinham castigando há anos, enfisema e broncopneumonia que culminaram numa parada cardíaca irreversível. O silêncio que se seguiu ao anúncio foi tão denso quanto o som que ele sempre carregou.

Nascido em 1943 no bairro do Estácio, filho de um maestro de banda militar, Macalé cresceu entre clarins e batuques de escola de samba. Ainda adolescente, trocou a batuta do pai pela guitarra elétrica e nunca mais olhou para trás. Nos anos 60, já circulava pelos mesmos corredores que Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas sempre um passo ao lado, como quem recusa o centro do palco para criar o próprio canto. Era o contraponto áspero da Tropicália, o ruído que impedia a beleza de ficar muito doce.

Sua parceria mais célebre nasceu quase por acidente. Em 1971, Wally Salomão pediu uma música para “Vapor Barato”, poema que parecia impossível de musicar. Macalé sentou ao piano, tocou três acordes tortos e, em minutos, criou um dos hinos mais doloridos da MPB. Quando Gal gravou, a canção ganhou o país, mas Macalé continuou sendo o autor que poucos sabiam nomear. Preferia assim: a obra acima do ego, a sombra acima da luz.

Nos anos de chumbo, pagou caro pela ousadia. Exilado em Londres, viu seu nome riscado dos créditos de discos e programas de televisão. Voltou ao Brasil mais pobre, mais rouco e ainda mais teimoso. Gravou discos que misturavam samba de morro, rock psicodélico, poesia concreta e blues pantanoso, álbuns que a crítica adorava odiar e que o público demorava décadas para entender. “Aprender a Nadar”, “Só Morto”, “O Que É o Que É” – cada título era um soco no estômago do bom gosto médio.

Aos 70 anos, quando muitos já aceitam o papel de patrimônio vivo e sorriem para fotos, Macalé decidiu que ainda tinha contas a acertar. Lançou discos furiosos, subiu em palcos com a mesma camisa rasgada de sempre e xingou quem achasse que idade traz compostura. Cantava com a voz cada vez mais grave, como se carregasse o peso de todas as notas que inventou. Quem o viu ao vivo nos últimos anos diz que era impossível desviar os olhos: ali estava um homem que transformava fragilidade em força elétrica.

O Brasil que ele criticou, amou e desafiou agora chora sua ausência. Das rodas de samba da Portela às pistas indie de São Paulo, das lives pandêmicas às mensagens de Caetano e Gil, todos reconhecem que algo essencial se foi. Macalé não era apenas um músico: era o lembrete permanente de que a arte brasileira pode ser bela, sim, mas também precisa ser incômoda, suja, verdadeira.

Talvez o maior legado de Jards Macalé seja ter mostrado que é possível envelhecer sem amansar. Morreu como viveu: sem pedir licença, sem se explicar demais, sem deixar a guitarra no volume baixo. O vapor barato se dissipou, mas o eco daquele som torto e genial ainda vai levar muito tempo para sumir.

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