Mãe de jovem que morreu de câncer após passar 6 anos presa injustamente comove com relato

O caso de Dâmaris Vitória Kremer da Rosa, jovem gaúcha de apenas 26 anos, é daqueles que escancaram as falhas mais profundas do sistema judicial e prisional brasileiro. Após seis anos presa preventivamente por um crime que não cometeu, ela foi absolvida em agosto deste ano. Mas a liberdade chegou tarde demais: Dâmaris morreu no dia 27 de outubro, vítima de um câncer de colo do útero diagnosticado dentro da prisão.
A história é marcada por negligência, sofrimento e um sentimento coletivo de impotência. Em entrevista à Rádio Gaúcha, a mãe da jovem, Claudete Kremer Sott, relatou os horrores vividos pela filha durante os anos atrás das grades. “Ela se mordia de dor”, contou, entre lágrimas. Segundo Claudete, as companheiras de cela tentavam ajudar, oferecendo seus próprios remédios, já que os agentes penitenciários se negavam até a dar um simples paracetamol. “As outras presas choravam vendo o sofrimento dela”, completou.
Preso de 2019 até março de 2025, o corpo de Dâmaris sucumbiu onde o Estado deveria proteger. A prisão preventiva — medida que deveria ser exceção — virou sentença. E quando finalmente foi concedida a prisão domiciliar, o câncer já estava em estágio avançado. Mesmo assim, a Justiça determinou que ela usasse tornozeleira eletrônica durante o tratamento de quimioterapia e radioterapia. A defesa pediu a retirada do aparelho, sem sucesso.
A Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) negou qualquer negligência e afirmou, em nota, que Dâmaris recebeu 326 atendimentos de saúde. Mas, segundo a família e os advogados, o número de consultas não traduz cuidado — muitas delas, dizem, foram registros burocráticos, sem exames ou medicação eficaz.
O cenário descrito pela mãe é de arrepiar: “É uma antiga senzala. As baratas caminham por cima das camas, por cima dos alimentos. Não tem pátio nem para as visitas. Quando chove, a gente fica na chuva.” O presídio de Rio Pardo, onde Dâmaris esteve por meses, simboliza a precariedade de um sistema que, na prática, ainda parece funcionar sob a lógica do abandono.
Acusada injustamente de atrair uma vítima de assassinato para o ex-namorado, Dâmaris sempre afirmou ser inocente. Os tribunais, porém, levaram seis anos para reconhecer o óbvio: não havia provas. A absolvição veio quando ela já estava fraca demais para comemorar.
Mesmo doente, Dâmaris não deixou de sonhar. Queria estudar biomedicina, “ajudar outras pessoas” — como relatou a mãe. Mas o sonho se desfez antes que pudesse florescer.
A morte da jovem expôs um problema estrutural: o uso indiscriminado da prisão preventiva, que hoje mantém milhares de pessoas atrás das grades sem condenação. O caso de Dâmaris reacendeu o debate sobre a responsabilidade do Estado e o direito à saúde dentro do sistema prisional.
Agora, a família tenta transformar a dor em denúncia. Claudete promete lutar até o fim para que a história da filha não seja esquecida. “Ela não morreu só por causa do câncer”, desabafou. “Mataram ela aos poucos, todos os dias.”
O grito de Dâmaris foi ouvido tarde demais — mas ecoa como um lembrete cruel de que a justiça, no Brasil, ainda tem preferido o silêncio à compaixão.



