Mãe lamenta morte de filho, Ravel do CV, durante megaoperação no RJ: “É isso que o governo faz”

No final de outubro de 2025, o Rio de Janeiro acordou sob um clima de tensão diferente do habitual. Uma megaoperação policial batizada de “Contenção” tomou as ruas de várias favelas, mobilizando milhares de agentes, blindados e até helicópteros. O objetivo era claro: enfraquecer o domínio de facções criminosas em áreas estratégicas da cidade. Em poucos dias, o saldo de mortos ultrapassou a marca de cem, números que assustaram até quem já convive com a violência cotidiana. Entre tantas histórias interrompidas estava a de Yago Ravel Rodrigues Rosário, um jovem de apenas 19 anos, morador da Rocinha e conhecido nas redondezas como Ravel do CV.
Ravel não era um nome qualquer na comunidade. Criado entre os becos apertados da maior favela da América Latina, ele cresceu vendo o movimento do tráfico de perto. Nas redes sociais, postava fotos segurando armas, exibindo cordões de ouro e posando com amigos em festas. Para alguns, era só ostentação de adolescente; para outros, um sinal de que já estava mergulhado no mundo do crime. Ligado ao Comando Vermelho, ele aparecia em vídeos cantando funk proibido e desafiando rivais. Quando a operação chegou, os tiroteios começaram cedo, e Ravel estava no meio do fogo cruzado, ou pelo menos era o que se esperava ouvir depois.
Dias após o confronto, a mãe dele, Rakhel Rios, uma mulher de fala firme e olhar cansado, foi até o Instituto Médico Legal no centro da cidade. Ela queria ver o filho, entender o que tinha acontecido, talvez encontrar um pouco de paz. Mas o que encontrou foi um corpo irreconhecível. Diante de jornalistas e curiosos, ela deixou escapar palavras que gelaram quem ouvia: disse que não havia marca de tiro no corpo do rapaz, apenas sinais de espancamento severo, cortes profundos e, o mais chocante, a cabeça completamente separada do tronco, como se tivesse sido colocada em exposição, quase um troféu macabro. A dor dela era tão grande que transbordava em cada frase.
O laudo do IML, entregue à família pouco depois, trouxe detalhes que confirmaram parte do desabafo. Não havia perfurações de bala, como seria comum em um confronto armado. Em vez disso, o documento descrevia uma “secção medular cervical”, ou seja, um corte limpo que separou a cabeça do corpo, além de múltiplos ferimentos cortantes, fraturas ósseas no rosto e uma ruptura violenta no couro cabeludo, com exposição do cérebro. Era um quadro de violência extrema, difícil de imaginar em uma ação oficial de segurança pública. A Polícia Civil abriu inquérito, mas até agora as explicações são vagas, e a família segue sem respostas concretas.
A morte de Ravel não aconteceu isolada. Outras famílias relataram corpos com sinais de tortura, membros quebrados, rostos desfigurados. Vídeos que circulam nas redes mostram policiais revistando corpos caídos, alguns já sem vida, em cenas que levantam dúvidas sobre o limite entre legítima defesa e abuso de poder. A operação, elogiada por autoridades como um golpe duro contra o crime, também coleciona críticas de defensores de direitos humanos, que falam em execuções sumárias e desrespeito à vida. No meio disso tudo, a Rocinha tenta voltar à rotina, mas o clima é de medo e desconfiança.
Para Rakhel, o filho não era apenas mais um número nas estatísticas da guerra às drogas. Era o menino que ajudava em casa, que sonhava com uma moto nova, que ainda chamava ela de “mãe” com voz de criança mesmo já sendo homem feito. Hoje, ela carrega fotos dele no celular e uma dor que não explica. O caso de Ravel se transformou em símbolo de um Rio dividido: de um lado, quem aplaude a força da lei; do outro, quem pergunta se o preço da segurança não está alto demais. Enquanto as investigações caminham devagar, a cidade segue respirando, mas com um peso a mais no peito.



