Essas foram as últimas palavras da Japinha do CV em uma mensagem para a amiga

Penélope, a jovem que o submundo do crime batizou de Japinha do CV, parecia deslocada no papel de guerreira do Comando Vermelho. Com traços delicados, cabelo preso em um rabo de cavalo prático e um apelido que evocava algo leve e distante da brutalidade das favelas cariocas, ela carregava fuzis como se fossem extensões do corpo. Aos olhos de quem a via de longe, era apenas mais uma silhueta camuflada entre as vielas do Complexo do Alemão, mas, para os que conviviam com ela, Japinha era incansável, uma presença constante na linha de frente do tráfico, trocando rajadas com policiais em confrontos que se repetiam como capítulos de uma série sem fim. No dia 28 de outubro de 2025, durante uma megaoperação policial que mobilizou centenas de agentes, blindados e helicópteros nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, sua trajetória chegou ao fim de maneira abrupta e definitiva: um tiro de fuzil na cabeça, disparado após ela resistir à abordagem e abrir fogo contra os oficiais que avançavam morro acima.
Minutos antes do disparo fatal, enquanto o barulho ensurdecedor das balas cortando o ar ecoava pelas ruas estreitas e o rotor dos helicópteros sobrevoava como um predador implacável, Japinha mantinha uma conversa corriqueira pelo WhatsApp com uma amiga que estava em local seguro, longe do epicentro da violência. A troca começou de forma trivial, quase como um cumprimento matinal em tempos de paz: “Oi”, digitou a amiga, provavelmente alheia à intensidade do momento. “Oi. Não vamos ficar aqui, não”, respondeu Japinha, a voz provavelmente abafada pelo colete tático e pelo capacete improvisado, revelando uma urgência contida, mas sem pânico exagerado. Em seguida, veio uma chamada de vídeo que durou exatos três minutos e alguns segundos, tempo suficiente para capturar o fundo sonoro do inferno: estampidos secos, gritos distantes, o zumbido constante da aeronave policial circulando no céu carregado de fumaça. “Acabou a operação já?”, perguntou a amiga, na ingenuidade de quem acompanha os fatos pela televisão. “Não. Eles tão aqui em cima de nós. A bala tá comendo. Helicóptero tá aqui rodando”, descreveu Japinha, com a frieza de quem já perdeu a conta de quantas vezes viveu aquela mesma cena, transformando o caos em mera atualização de status.
Do outro lado da tela, a amiga tentava exercer o papel de âncora, de voz da razão em meio à loucura. “Fica onde você tá, para de maluquice. Tá seguro aí?”, escreveu, talvez imaginando um esconderijo improvisado entre paredes de tijolo aparente ou um canto qualquer que pudesse oferecer proteção temporária. As palavras carregavam preocupação genuína, um pedido quase maternal para que a companheira abandonasse a bravata e priorizasse a sobrevivência. Mas não houve mais respostas. O ícone de “digitando” desapareceu, a chamada caiu, e o silêncio que se instalou foi mais eloquente do que qualquer grito. Minutos depois, o corpo de Japinha jazia no chão de concreto, ainda vestido com o uniforme de combate: calça camuflada, coturnos gastos pelo terreno irregular, colete tático repleto de munição reserva e o celular ao lado, tela rachada pelo impacto da queda, como um testemunho mudo do instante em que a vida se esvaiu.
A morte de Japinha do CV não foi um evento isolado dentro do contexto maior da operação policial, que se estendeu por horas e transformou as comunidades em um vasto campo de batalha. O saldo foi devastador: mais de 120 vítimas confirmadas, entre traficantes armados até os dentes, policiais feridos em emboscadas, e moradores inocentes atingidos por balas perdidas enquanto tentavam se abrigar em suas próprias casas. Granadas explodiam em becos, fuzis respondiam com rajadas intermináveis, e o cheiro de pólvora se misturava ao de medo e suor. Japinha, no entanto, destacou-se não pela ferocidade em combate — embora relatos a descrevessem como ágil e precisa no manuseio das armas —, mas pela humanidade capturada naquelas mensagens finais, um registro digital que escapou do anonimato graças ao vazamento para a imprensa. A conversa, divulgada em detalhes por colunas policiais e portais de notícia, transformou uma figura antes reduzida a estereótipo de “bandida” em alguém palpável, com laços afetivos, medos contidos e uma rotina de perigo que já não surpreendia.
Essa troca de mensagens humaniza de forma inescapável uma personagem que o noticiário sensacionalista costuma empacotar em manchetes frias ou estatísticas de guerra urbana. Japinha não era apenas uma “soldada do tráfico”, uma engrenagem replaceable na máquina do Comando Vermelho; era uma jovem que, mesmo sob fogo cruzado, encontrava tempo para manter contato com o mundo exterior, para responder a um “oi” com naturalidade, para descrever o apocalipse ao redor como quem comenta o trânsito pesado. Havia nela uma dualidade perturbadora: a guerreira que empunhava fuzis calibre 762 e a amiga que interrompia o tiroteio para uma chamada rápida, como se o celular fosse um portal para uma realidade paralela onde a normalidade ainda existia. Vestida para a guerra, mas falando como quem marca um encontro casual, ela encarnava a contradição de uma geração criada entre balas, onde o extraordinário vira rotina e o medo se disfarça de indiferença.
No final das contas, as últimas palavras de Japinha ficaram gravadas como um epitáfio involuntário no histórico do WhatsApp, um diálogo abruptamente cortado que diz mais sobre a banalidade do perigo nas favelas do Rio do que horas de análise sociológica. Ela morreu como viveu: no epicentro do confronto, com o dedo ainda próximo ao gatilho, o corpo protegido por camadas de kevlar, mas a mente conectada a uma amiga distante que nunca imaginaria que aquela seria a derradeira conversa. O celular, agora prova em inquérito policial, carrega as marcas da violência — tela estilhaçada, bateria esgotada —, mas também um fragmento de intimidade: risadas abafadas na chamada de vídeo, conselhos não seguidos, um “fica onde você tá” que ecoa como súplica ignorada. Japinha do CV partiu deixando para trás não só um corpo crivado, mas um lembrete digital de que, mesmo no coração da guerra, as pessoas continuam a se importar, a se comunicar, a tentar preservar um fio de humanidade até o último segundo antes do silêncio definitivo.



