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Alerta: Jovem desenvolve trombose cerebral após uso contínuo de anticoncepcional

Em 2021, a rotina da arquiteta Ana Júlia Pires mudou drasticamente. Aos 32 anos, saudável e ativa, ela começou a sentir tonturas, dores nas costas e um incômodo persistente no pescoço. “Pensei que fosse estresse do trabalho”, relembra. Poucos dias depois, já sem equilíbrio e com dificuldade para mover o corpo, precisou ser internada. O diagnóstico veio como um choque: trombose venosa cerebral, uma condição rara, mas potencialmente fatal.

“Minha trombose atingiu cerca de 70% ou 80% do meu cérebro. Fiquei com parte do corpo paralisada por causa da pressão”, contou Ana Júlia. Os médicos associaram o quadro ao uso contínuo de um anticoncepcional hormonal combinado, que ela tomava havia anos sem qualquer efeito colateral aparente.

A trombose venosa cerebral ocorre quando um coágulo impede o fluxo normal do sangue nas veias do cérebro, o que pode causar danos neurológicos severos. Entre os sintomas mais comuns estão dor de cabeça intensa e persistente, náuseas, convulsões, alterações visuais e fraqueza em partes do corpo. A condição exige diagnóstico e tratamento urgentes.

De acordo com a ginecologista Jaqueline Lubianca, especialista em saúde feminina, o uso de anticoncepcionais pode aumentar o risco de trombose, especialmente em mulheres com predisposição genética ou outros fatores de risco. “O anticoncepcional altera o equilíbrio da coagulação do sangue. É preciso esclarecer isso às pacientes, mas o risco é baixo em mulheres jovens, saudáveis e não fumantes. A trombose do seio venoso cerebral é extremamente rara — ocorre em média três casos a cada um milhão de mulheres”, explica.

No caso de Ana Júlia, nenhum exame prévio foi solicitado para avaliar predisposição genética à trombofilia, condição que aumenta as chances de formação de coágulos. “Nunca me pediram exame algum, só perguntaram se eu tinha histórico de problemas circulatórios na família”, relata. Segundo a médica, a Organização Mundial da Saúde (OMS) determina apenas a medição da pressão arterial como obrigatória antes do início do uso de anticoncepcionais. “A hipertensão é um fator de risco importante, mas não o único. O ideal é que cada mulher receba uma orientação personalizada”, complementa Lubianca.

Atualmente, há alternativas seguras para quem precisa de métodos contraceptivos, como dispositivos intrauterinos (DIUs) e implantes subdérmicos, que não contêm estrogênio — o hormônio mais relacionado a casos de trombose. O Ministério da Saúde informou que pretende ampliar a oferta desses métodos em unidades públicas nos próximos meses.

Após o susto, Ana Júlia enfrentou um longo processo de recuperação. “Perdi a coordenação dos braços, o lado esquerdo do corpo formigava e desenvolvi um estrabismo que durou seis meses. Precisei fazer fisioterapia intensiva. Tive muita sorte de não ficar com sequelas permanentes”, conta.

Hoje, ela usa sua experiência para alertar outras mulheres. “Não quero que ninguém passe pelo que eu passei. É importante conversar com o médico, entender os riscos e não ignorar sintomas estranhos. Se eu tivesse esperado mais um dia, talvez não estivesse aqui para contar.”

A história de Ana Júlia é um lembrete poderoso de que o cuidado com o corpo vai muito além da estética ou da praticidade. Cada decisão sobre a saúde precisa ser tomada com informação, acompanhamento médico e atenção aos sinais que o organismo dá — mesmo os mais sutis.
 

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